“Vou sair desta experiência, que vou guardar para a vida, valorizando ainda mais quem pratica desporto e quem se desafia diariamente, muitas vezes no seu limite.”

Abel Santos é de Santa Eulália, já não vive em Arouca há quase trinta anos, casou em Cesar, foi para terras helvéticas com a intenção de fazer uma casa e acabou por ficar por lá, e na passada semana realizou o sonho de fazer em bicicleta o percurso da Suíça até Portugal.

O ciclista confidenciou ao DD, que, desde sempre, teve o sonho de praticar ciclismo, mas antigamente uma bicicleta para as condições de vida na altura era muito cara. “Quando cheguei à Suíça a primeira coisa que eu comprei foi uma bicicleta, isto em 1995. Ou seja, pratico desde essa altura.”

O arouquense afirma que aqui é mais difícil de praticar ciclismo pois é mais montanhoso, é mais duro, lá percorreu praticamente o país quase todo. “Como eu andava muito de bicicleta conheci um amigo meu que criou um grupo de ciclismo, e uma dada altura, por volta de 2008, em conversa combinamos que um dia havíamos de ir a Portugal de bicicleta. No entanto, o grupo começou a desintegrar-se e eu fui o único que fiquei sempre. Em 2019 eu fui fazer uma volta de bicicleta bastante grande para aí de 200 km, e encontrei esse meu amigo de Brunhais (Póvoa de Lanhoso) que estava a fazer um piquenique lá longe numa montanha, e voltamos a falar no assunto da vinda a Portugal sobre rodas. Em 2020 começamos a organizar, depois meteu se a pandemia, e então decidimos que a data escolhida seria 2022.

Logística e maiores obstáculos

Os dois amigos sabiam que esta seria uma jornada difícil, pois isso arranjaram uma caravana, localizaram os hotéis onde iam ficar, além de outros assuntos logísticos. “A caravana só veio a partir do terceiro dia, esses três dias foram os mais difíceis, ainda reservamos o hotel. Íamos com a mochila às costas, viajar de bicicleta com uma mochila de 8 kg não é tarefa fácil.”

Após esse período veio o ajudante que ambos escolheram, de Vale de Cambra e já puderam colocar a mochila na caravana o que facilitou bastante a jornada para os atletas.

As paragens, o trajeto, etc, foi tudo decidido anteriormente pelos amigos.  “Foram 2050 km e nós dividimos isso por 10 dias, 200 km por dia. Isso requer uma grande preparação física. Nós fomo-nos preparando no ano passado e, este ano, nos últimos três meses andávamos todos os dias para evitar lesões que comprometessem a viagem.”

Todavia Abel Santo reconheceu que o maior obstáculo foram mesmo os primeiros três dias, em França. “Isto porque nós viemos muito pelo interior da França, e ainda não tínhamos a caravana e tínhamos de andar quase porta em porta a pedir água. Quando a caravana chegou ao pé de nós já tínhamos 600 km feitos.”

Sonho tornado realidade

O ciclista relembra com grande positividade e alegria a experiência de, pela primeira vez tomar banho fora da caravana, “uma vez estávamos a tomar banho e passaram uns motards e um caiu mesmo à nossa frente (risos). Outra vez em Espanha estávamos à procura de um restaurante, e para coincidência o restaurante era Português. Eles fizeram de propósito uma refeição para nos reestabelecermos. Fomos recebidos como se fossemos uns heróis.”

Os dois amigos optaram por estradas com menos trânsito, para evitarem o trânsito e os camiões. Seguiram por trajetos com mais natureza, pela zona campestre e agrícola. Todavia, Suíça e Portugal, ou seja, a partida e a chegada foram os melhores locais na opinião de Abem Santos. “Principalmente Portugal porque sempre que precisávamos de algo estavam mais disponíveis. Aqui em quase qualquer esquina há um café (risos).

O emigrante, natural de Santa Eulália, relembra uma experiência única, “conseguimos cumprir o período de 10 dias para chegar a Portugal, íamos sempre ganhando terreno de uns 10 a 20 km por dia para termos margem para o final. Nos últimos três dias diminuímos a intensidade, não que estivéssemos mais cansados, mas tínhamos coisas combinadas na Póvoa de Lanhoso e em Arouca, o que nos atrasou mais um pouco.”

Foram recebidos na Póvoa de Lanhoso em clima de Festa pelos familiares do colega ciclista Francisco Fernandes, Câmara da Póvoa e respetiva junta de freguesia de Brunhais, acabando por afirmar que em Arouca as boas-vindas não foram inferiores sendo que Margarida Belém, Presidente da Câmara Municipal de Arouca, estava à espera de ambos para os parabenizar.  

AS, quando questionado se considerou a viagem perigosa, adiantou que acredita que o perigo existe sempre em qualquer atividade, “o que é necessário é iniciar uma aventura destas sabendo que temos de estar atentos. Em França os motoristas de camião não são muito respeitadores. Tenho de confessar que aqui em Portugal quase que ia sendo atropelado mortalmente por um autocarro, e na França por um carro.”

Mensagens de Apoio e de Parabéns

Abel e Fernando têm recebido, ao longo das últimas semanas, muitas mensagens de parabéns, mais do que as que esperavam até. “Criamos uma página de Facebook, e muitas pessoas começaram a seguir-nos, inclusive aqui de Arouca. Fazíamos os nossos vídeos em direto e as coisas foram acontecendo. Não queríamos divulgar muito porque era uma coisa nossa, nem quisemos patrocínios, mas as pessoas foram acompanhando e apoiando”.

O arouquense revelou que tiveram mesmo pessoas que os foram esperar a França, que eram emigrantes, e sabendo que estes iam passar por aquela zona iam apoiá-los vestidos a rigor com as cores de Portugal.

Em termos de problemas mecânicos esses foram quase inexistentes, Francisco Fernandes teve três furos e Abel Santos teve dois, um mesmo a chegar a Arouca e outro mais no início da viagem.  

O ciclista arouquense para o futuro não quer repetir o mesmo trajeto, mas sim fazer outros trajetos, entre eles -fazer a nacional 2 de Chaves a ao Algarve, -realizar a volta à Europa e, entre a Suíça e a Itália -fazer três percursos nas montanhas mais altas da Suíça.

Abel Santos confessou que pensou em desistir por duas vezes, uma deles no segundo dia, quando fez uma etapa de 200 quilómetros, com muito vento e muito calor, cerca de 33 graus, e com pouca água, e na sétima etapa, em Espanha, quando pararam ao pé do mar e depois tiveram de subir para Burgos, “chovia muito e ventava também, e ao quilómetro 40 também pensei em desistir. Mas depois lá ia ao Facebook e via lá uma mensagem de força dizendo que íamos conseguir e a partir daí nunca mais tive esse pensamento.”

“Agradeço a todos que nos apoiaram, e vou sair desta experiência, que vou guardar para a vida, valorizando ainda mais quem pratica desporto e quem se desafia diariamente, muitas vezes no seu limite.”

Texto: Ana Castro

Entrevista na sede do DD
Os ciclistas recebidos pela Presidente da Câmara de Arouca Margarida Belém