Por: Alberto de Pinho Gonçalves

A preocupação de saber da existência de monumentos ou estabelecimentos de valor histórico no País, em meados do século XIX, por parte do poder central, levou o Governador Civil do Distrito de Aveiro, a endereçar um ofício, a 5 de Outubro de 1845, ao Administrador do Concelho de Arouca, para que informasse da existência em Arouca, dos respectivos imóveis.

O Administrador enviou uma relação que, segundo ele, eram os mais significativos, no então concelho de Arouca.

O relatório foi o seguinte:

«Relatório dos Monumentos e Estabelecimentos mais notáveis que existem nesta Villa e Concelho de Arouca.

1.º O Mosteiro das Freiras da Ordem de Cister, fundado no seculo nôno[1], e que se acha reedificado já á anos ao gosto moderno: – na sumptuosa Igreja d’elle se acha colocado em Altar próprio um rico caixão de Ébano contendo as reliquias da Rainha Santa Mafalda.

2.º Hum antigo Moimento de pedra (úm quarto de legoa ao poente da Villa) denominado = da Rainha Santa = figurando úm caixão conductor do seu cadáver, e na concavidade superior tem em relevo úmas poucas Estrelas, e nas extremidades cabeças de mulas[2]. Não tem data, nem letras algũas[3].

3.º A Capela da Mesericordia, e seu pequeno Edificio[4], fundada no anno de 1610 ou 1612 como se vê n’úma inscripção no padial da porta; tem Irmandade incorporada: infelizmente não tem hospital.

4.º Huma antiga Capella denominada de = S. Pedro = ao nascente da Villa e próxima a esta; tem úma antiga e veneranda imagem do dito Sancto, e toda de úma só pedra[5]; he tradição constante ser ali antigamente a sede da Parochia. E finalmente

5.º Hũa Casa, ou antes Torre antiquíssima situada n’úma Quinta, hum quarto de legoa ao sul da Villa: he úm Edificio da ordem e gosto gothico, sem data, mas he tradição constante = que fora habitação, ou Fortaleza dos Mouros. Em úma pedra angular do Edificio, e chegada ao chão se acha hũa quasi apagada inscripção de letras gothicas, parecendo aliás caracteres gregos.


[1] Foi no século X.

[2] A representação é de cabeças de cordeiros (Agnus Dei). A interpretação do Administrador deriva da lenda sobre a morte de Santa Mafalda.

[3] Este monumento está envolto numa lenda sobre a Rainha Santa Mafalda. A realidade é que é um monumento funerário, de um cavaleiro medieval (talvez da estirpe dos Gascos, a exemplo de outros Memoriais espalhados na zona de Riba-Douro). Pensamos que foi mandado construir pela Rainha Santa (daí a lenda dizer que é o Arco da Rainha Santa), para sepultura do grande benfeitor do Mosteiro, Mónio Rodrigues (companheiro de armas de D. Afonso Henriques) que, juntamente com sua mãe, D. Toda Viegas, deixou para o mesmo Mosteiro muitas propriedades, principalmente na freguesia de Santa Eulália, onde foi erigido o memorial, no lugar do Carvalho de Algar (hoje Santo António).

[4] Nesta altura ainda não possuía a actual torre sineira, que começou a ser construída nos finais de 1892 e primeiros meses de 1893, com pedra obtida na demolição da Igreja Paroquial de São Bartolomeu, que existia no local da actual Praça Brandão de Vasconcelos.

[5] Esta imagem encontra-se actualmente no Museu de Arte Sacra de Arouca, foi transportada da dita capela para o Mosteiro, em carro de bois, por Manuel Teixeira de Pinho, na altura caseiro da Casa de São Pedro, defronte da Capela. É uma peça de meados do século XV, em calcário, da oficina de Coimbra, atribuída ao mestre João Afonso.

Foi posseção dos Jesuitas, e hoje pertence aos Mesquitas, de Basto.

6.º Na Praça da Villa, hum antigo Pelourinho firmado n’úma alta coluna de pedra, terminando em úma Esfera armilar: tem três escudos com as antigas armas do Reino somente com as cinco quinas.

Mais existem outros dous Pelourinhos inferiores, um no antigo Conc.º do Burgo; e outro se acha no extinto Conc.º de Alvarenga, situado no lugar de Trancoso.

Arouca 10 de Outubro de 1845.[1]»

E eram estes os imóveis, considerados na época, pelo Administrador do Concelho, dignos de valor histórico.

Mas, apesar disso, não evitou que os Pelourinhos da Vila de Arouca e de Vila Meã do Burgo fossem desmantelados nos finais do século XIX: o primeiro aquando da construção da Praça Brandão de Vasconcelos; e o segundo na abertura da nova estrada do Cimo do Burgo à Vila de Arouca.

Actualmente estão reconstruídos, o de Arouca, ao lado da igreja do Mosteiro, e o do Burgo, ao lado da capela do Espírito Santo, naquela localidade.


[1] Arquivo da Associação de Defesa do Património Arouquense.