Maryna Trepova encontra-se em Arouca desde 17 de março de 2022, veio para Portugal devido ao despoletar da guerra na Ucrânia, devido à invasão Russa ocorrida 24 de fevereiro de 2022. Contactada pelo DD, decidiu conceder-nos uma entrevista onde relatou como tem sido a experiência como refugiada, desde que chegou a Arouca. Maryna também partilhou qual a sua opinião sobre este conflito que tem alterado o destino de tantas vidas e causado o sofrimento a inúmeras famílias desde o seu início.

DD-Desce quando está em Portugal? Desde o Início da invasão da Ucrânia pela Rússia ou mais cedo?

MT-Estou em Portugal desde o início da guerra, desde 17 de março de 2022, pois isso depois da Guerra.

DD-Porque é que escolheu Portugal? Quem a contactou ou como estabeleceu contacto com os voluntários que a ajudaram?

MT-Eu tinha contactos aqui em Portugal, no Porto, um ucraniano que já vivia lá, e também contactei com os voluntários aqui de Arouca. Ou seja, eu fiz um anúncio num grupo “Ucranianos em Portugal”, e foi aí que os voluntários de Arouca viram o meu post e me contactaram diretamente. Nessa altura eu estava na Roménia. Eu queria mesmo vir para o Porto ou para perto do Porto (100 km de raio).

Já cá tinha estado em 2018 numa viagem de negócios e gostei muito da região.

DD-Marina que tipo de trabalho desempenhava na Ucrânia (se quiser partilhar)? Continua a conseguir desempenhar o mesmo trabalho aqui em Portugal?

MT- Eu sou uma mulher de negócios, sou uma empreendedora. Tenho o meu pequeno negócio com um sócio, é uma empresa de consultoria em projetos. Quando estava na Ucrânia fazia consultoria a nível internacional, mas sim continuo a conseguir fazer o meu trabalho aqui em Arouca, porque consigo trabalhar a partir de casa.

DD- Está em Portugal sozinha ou com a sua família ou amigos?

MT-Estou com a minha família, éramos 8 pessoas ao todo, que saímos da Ucrânia e viemos para cá. Eu fiquei responsável pelo grupo quando viemos para cá. Agora somos 7, porque a minha filha voltou para a Ucrânia, ela quis voltar porque tem lá o namorado. Ele vive em Lviv, não está a combater e ela foi lá ter com ele.

DD-De que zona da Ucrânia é natural? Essa zona está agora ocupada?

MT-Eu sou de Kiev, e a zona de Kiev não está agora ocupada, está livre. O meu marido também está lá porque é obrigado a ficar, mas não é obrigado a lutar. Ele neste momento está por casa, mas mesmo assim não pode deixar a Ucrânia.

DD-E ainda tem mais familiares que ainda estão lá?

MT-Sim ainda lá tenho mulheres e crianças que são meus familiares. Estou preocupada com eles.

DD-O que pensa desta invasão pela parte da Rússia ao seu país? A seu ver, no seu palpite o que pode Vladimir Putin desejar com esta guerra?

MT-O Srº Putin e a Federação Russa são terroristas perigosos para todo o mundo, porque eles tentam criar conflitos e guerras em diferentes partes do mundo. Dou-lhe alguns exemplos: na Síria, na Geórgia, na Moldávia, Azerbaijão, e claro na Chechénia. Eles mataram milhares de pessoas. E agora temos a Ucrânia invadida. Nós apesar de termos uma longa relação com a Rússia não somos países irmãos, apenas tínhamos relações com eles porque já tínhamos sido ocupados pela Rússia há milhares de anos atrás, e quando foi assinado o contrato para a separação eles não mantiveram a sua promessa, eles mentiram. Assim como fazem os media na Rússia e nas regiões separatistas da Ucrânia. Ele não é um homem é uma besta, e o que está a fazer é impossível no século XXI.

DD-Porque acha que a Federação Russa ou Vladimir Putin estão a fazer este tipo de atrocidades, e porque é que invadiram a Ucrânia?

MT-Tudo por uma questão de ideologia e para controlar e aterrorizar as pessoas, e tentar fazer o mesmo com o resto do mundo, e também por uma posição estratégica, porque se tiverem controlo do mar negro podem negociar mais e podem influenciar mais, e é isso que lhes importa. Mas eles são corruptos e é isso que está a destruir o país, até o exército é corrupto.

DD-Acha que a Ucrânia seria um país muito mais desenvolvido se não tivesse tido essa relação durante séculos com a Rússia?

MT-Sim porque o propósito deles ao longo dos tempos sempre foi fazer com que a Ucrânia fosse fraca, e fizeram tudo o que estava ao seu alcance para nos tornar mais fracos a nível de segurança, economia, IT, matérias primas, e para isso usaram várias estratégias.

DD-Que tipo de ajuda os voluntários lhe prestaram a si e à sua família quando chegaram (se quiser partilhar)?

MT- Estávamos assustados, pois não conhecíamos estes voluntários daqui que tinham comunicado connosco, eu apenas sabia que gostava de Portugal, porque já cá tinha estado, e que muitos ucranianos viviam cá, sendo já a segunda maior comunidade de emigrantes. Também tinha alguns contactos através das redes sociais, mas no fundo não conhecia nada sobre Arouca. Todavia, quando chegamos foi espetacular porque conhecemos pessoas maravilhosas, a vila é calma. O diamante desta terra são mesmo as pessoas, porque nos propuseram apartamentos de graça, compraram tudo aquilo que precisávamos quando chegamos. De acordo com a legislação nós podemos trabalhar, mas para a nossa família não foi preciso porque trabalhamos remotamente. Mas muito ucranianos que vieram precisaram de trabalho, e os voluntários ajudaram-nos a encontrar trabalho, sendo que neste momento já estão empregues. Muitas pessoas trazem comida e roupa e nós agradecemos muito porque de facto nunca passamos por nada parecido nas nossas vidas

DD- Se a guerra terminasse amanhã, por exemplo, voltava para a Ucrânia ou ficava?

MT- Teria de voltar porque não tencionei abandonar o meu país e o meu marido permanece lá. Tenho planos para trabalhar no mundo todo, por isso não podia ficar aqui, mas queria que o meu filho acabasse a escola em Arouca porque lá, devido à guerra, a educação está a passar uma grande crise, e para que o ensino voltasse a reerguer-se teríamos de esperar, pois o sistema não poderia voltar assim tão rapidamente à normalidade. Mas isso seria um cenário muito otimista, vamos ver.

Texto: Ana Castro

Fotos: Carlos Pinho