Por: Francisco Gonçalves

Pouco a pouco vamos sendo arrastados para a guerra, numa escalada contínua e multifacetada (militar, económica, comunicacional) que não sabemos onde vai parar. É difícil perceber como tal caminho e recursos canalizados desaguarão na paz.

Não vou discutir quando esta guerra começou, se foi em 2014 ou em 2022. Para não ser acusado de “putinista” ou de ofuscado pelo “Sol da Rússia” vou grafar as palavras: condenação, inequívoca, veemente, invasão, Rússia. Vou, até, imagine-se, classificar o regime russo de não democrático, nacionalista, xenófobo e a tender para o fascista, assente no messianismo da “Mãe-Rússia”. Faço-o porque estas considerações são verdadeiras e porque não quero ficar retido neste nó górdio em que nos enredaram, sem alcançar o problema de fundo, o Nacionalismo, nem mais nem menos que a antecâmara da Xenofobia e do Fascismo. 

Do ponto de vista das ideias, o problema do Nacionalismo não é o orgulho na nação, na cultura que nos gerou e fez crescer. O problema é que resvala facilmente para o desprezo pelo outro, pelo diferente, pelo oriundo de outra nação, de outra cultura. O problema, também, não está na ideia religiosa, no patrono da nação, o problema está no elemento possessivo, o nosso patrono, o nosso Deus. Sendo nosso, não é do outro. Depois, basta uma faísca para a ignição e pasto abundante – descontentamento social, peste, fome, guerra e uns fascistas organizados.

Não é aceitável que os filhos da “Mãe-Rússia” bombardeiem o povo ucraniano, como não é aceitável que o nacionalismo ucraniano bombardeie os seus “pretos da neve”, os tais separatistas pró-russos, que por sua vez metralham os filo-polacos das suas terras. Assim fizeram, no passado, os nacionalistas ucranianos à minoria polaca, o nacionalismo polaco à minoria lituana, o nacionalismo lituano à minoria russa, o império russo aos polacos, o nazi-fascismo aos judeus, o nacionalismo moldavo aos agricultores romenos…

Num tempo em que o espectro que paira é o do Nacionalismo, o tal que distribui certeza messiânica pelo nacional e cacete pelo estrangeiro, armar até aos dentes as nações europeias, a alemã à cabeça, com a sua pródiga história de massacres e matanças, não é boa ideia.

Os filhinhos betos da Tia Europa podem achar a demanda belicista uma luta entre o Bem e o Mal, a qual, como no filme americano, terminará com o triunfo do Bem sobre o Mal. Porém, brincar com o fogo e acossar o urso da estepe pode não dar bom resultado. Entretanto, o Tio Sam vai esfregando aos mãos e ganhando umas massas com a miséria dos outros.