Foi um longo processo, de centenas de anos, até à beatificação da Rainha Santa Mafalda, por bula de 27 de julho de 1792, mas ao povo já não restavam dúvidas quanto à sua santidade, os seus milagres, a cura das doenças, dos remédios para todos os males e calamidades, inclusive para pôr fim a um incêndio a lavrar no coro do convento. Até mesmo o seu corpo «incorruptível» e a cheirar a jardins floridos pouco ou nada veio acrescentar à fé de gente pobre e humilde, cuja vida miserável contrastava com a grandeza e pujança da vida conventual. Independentemente dos pareceres e das investigações dos altos dignatários da igreja, Mafalda, a filha do rei D. Sancho I e neta de Afonso Henriques era santa e mais nada. E sem o povo, os seus mistérios, as suas crenças e sofrimentos não havia (ainda não há) santos e muito menos almas para salvar.

A este propósito, de visita a Arouca, escreveu Miguel Torga no seu diário: «a fé pode muito. Tanto que nem era preciso a igreja ter o trabalho de conservar as pestanas, os dentes e as unhas originais da santa». O corpo «mumificado», como também escreveu Saramago, desta Santa Mafalda «que é com certeza muito mais bela agora com o seu rostinho precioso do que foi em vida, lá nesse bárbaro século XIII».

Enfim, é a história e as histórias duma terra quase do início da nacionalidade moldada pela vida do convento. Até aos tempos, mais ou menos difíceis, que atravessamos. Por isso, passados dois anos e a coincidir com o feriado municipal, a 230 anos da beatificação, a festa voltou à rua, de novo da responsabilidade da Real Irmandade criada em 1886 para defesa da religiosidade e tradição. As habituais cerimónias religiosas, os enfeites nas janelas, a procissão a percorrer as ruas da vila, os acordes da Banda de Arouca.

E, como sempre, o povo. Muito povo. O grande protagonista de sempre, que no passado vinha a pé, percorria montes e vales, ao encontro da Rainha Santa para quem erguia as suas preces para sentir a mesma alegria, mas também o alívio e o reconforto dos desesperados.

Ao olhar o passado para seguir em frente, talvez seja esta, afinal, das histórias mais comoventes de sempre. Até na forma como conseguiu unir as gentes de Arouca em torno duma identidade que ainda perdura ao fim de tantos anos.

(A.B.)

Fotos: Carlos Pinho