Parece que o país redescobriu o Partido Comunista Português e as suas posições no que toca à política internacional. Não devia haver surpresas. Há algo que nunca mudou para os comunistas portugueses: a sua subserviência perante Moscovo. Em 1956, aquando a invasão soviética à Hungria, o PCP esteve ao lado de Moscovo; em 1968, durante a incursão militar soviética à Checoslováquia, o PCP esteve ao lado de Moscovo; e em 1991, quando a linha dura do regime soviético tentou um putsch contra Gorbachov, o PCP esteve ao lado da fação mais conservadora da cúpula soviética. Em abril de 2022, ao lermos a documentação oficial do PCP, ficamos com a sensação de que a Ucrânia invadiu a Rússia. Há, inegavelmente, um padrão.

Durante décadas houve um cordão umbilical entre a cúpula moscovita e o partido de Álvaro Cunhal, porém, com a dissolução da União Soviética, – a maior tragédia geopolítica do século XX, nas palavras de Vladimir Putin – essa ligação tornou-se essencialmente mitológica e cada vez mais difícil de explicar. A União Soviética caiu, e o PCP sobreviveu para assistir à luta de classes do século XXI. Com a queda da Meca do ideário marxista-leninista, o PCP ficou órfão. O sentimento de desolação, mau perder e melancolia, traduzir-se-iam num antiamericanismo telúrico e epidérmico, para não dizer primário. Com ou sem União Soviética, o PCP continuaria na luta, pela luta. Para muitos comunistas portugueses, incluindo Jerónimo de Sousa, o mundo está pior sem a União Soviética (DN, 08.11.2017).

Para todos os efeitos, o muro de Berlim ainda não caiu para o PCP. As lentes da guerra fria ainda moldam a sua visão. Os velhos fantasmas da era soviética ainda pairam sobre o imaginário do comunista português. A ortodoxia ideológica do PCP, no que toca à política externa, fazia sentido, ou pelo menos lógica, num mundo bipolarizado pelos blocos ideológicos da guerra fria, onde tudo era claro como a água. Havia o “nós” e o “eles”. Todavia, apesar da implosão do edifício soviético, o PCP procurou, doravante, revitalizar as lógicas da geopolítica da segunda metade do século XX; “as ilhas de socialismo” que ainda subsistiam, apresentavam-se como contrapesos à hegemonia dos Estados Unidos da América. Porém, é-se pragmático. Não importa se a Federação Russa, Cuba, Venezuela, ou mesma a Coreia do Norte, são ditaduras, autocracias ou regimes que ensaiam um socialismo travestido – o que realmente importa é o seu manifesto antiamericanismo. Hoje, bem sabemos que essa leitura do mundo leva-nos a gizar correlações grotescas, desprovidas de coerência.

A posição do PCP perante a invasão russa à Ucrânia comprova, inequivocamente, que o seu antiamericanismo é superior à sua honra e dignidade. O PCP passou o Rubicão. Os comunistas portugueses preferiram eufemizar a agressão russa, corrigindo a sua linguagem, e evitando, sempre que possível, as palavras “Putin”, “invasão”, “genocídio”, “massacre” ou “refugiados ucranianos”. No que toca à Ucrânia, não há papas na língua; vincam-se detalhadamente “os podres” desta jovem democracia. As atrocidades perpetradas pelo batalhão de Azov parecem ofuscar as atrocidades dos carniceiros do Kremlin. Através de um chorrilho esquizofrénico de falácias, meias-verdades e deturpações, o PCP “complexifica” o atual conflito a leste.

A coerência sistemática do PCP é acarinhada e celebrada na sociedade portuguesa. Mas, dever-se-á perpetuar tal? Há 17 anos, em 2003, o PCP condenou a invasão americana ao Iraque. E bem. Porque não o faz agora? Como é possível um partido anti-imperialista, favorável à autodeterminação dos povos, ser tão frouxo a demarcar-se da jaula oligárquica, que é a Rússia de Putin? A Rússia de Putin é a antítese do ideal social do PCP! O que justifica as contorções discursivas do PCP neste quadro? Um antiamericanismo contumaz, é certo. Com o desenvolvimento da guerra, o PCP parece estar lentamente a assimilar a filosofia dos mais cínicos: “eles são maus gajos, mas são os nossos gajos”.