O «ementar das almas» em Fermêdo

Nos meios rurais, incluindo as terras de Arouca, era velha tradição subir aos altos, em noites de breu, para recordar as almas do purgatório. Uma prática muito antiga, onde se misturavam superstições e religião popular e que, em alguns locais, se revestia de vário cerimonial. Aliás, nesses tempos, era voz corrente que se enxergavam luzes e ouviam gritos que não eram mais que as «almas penadas» a pedir misericórdia. Por isso, lá do alto suplicava-se:

«Lembrai-vos das almas do purgatório…»

E o povo saía a terreiro a «rezar pelas alminhas» que suplicavam ajuda para subirem ao Paraíso.

Com mais ou menos cerimonial era o «ementar das almas», que se realizava na Quaresma, até à quarta-feira da Semana Santa, conhecida por quarta-feira de Trevas. Ementavam-se as almas, inclusive para remissão de grandes pecados, pagar promessas ou até curar doenças. E o «ementador», que muitas vezes não era o principal interessado, escondia-se por detrás da figura de qualquer «pobre diabo» que de lampião calcorreava caminhos e esconjurava almas perdidas pelas encruzilhadas. Mas primeiro ia à porta principal da igreja, benzia-se, batia três vezes e chamava as almas que nas várias tarefas o iam proteger:

«Almas boas acompanhai-me, almas más deixai-me»

E as almas boas lá o acompanhavam, tendo como condição não olhar para trás e todos os que ouvissem tocar a campainha se afastassem.

Geralmente todo o cerimonial, o deambular no meio da escuridão, também terminava já tarde da noite com a subida aos altos dos ementadores a fazerem-se ouvir no silêncio da noite:

«Alerta pecadores alerta

A vida é curta a morte é certa

Se estais a dormir acordai

Se estais acordados rezai»

Foi esta velha tradição, que se perde na noite dos tempos, quando por todo o lado se adivinhavam almas boas, almas más, santos e diabos, que o Grupo Folclórico de Fermêdo e Mato, mais uma vez encenou, quando se aproxima a Semana Santa e a Páscoa.