O mês de abril marca, ao seu dia 25, o virar de um capítulo de quarenta e oito anos de ditadura. São também 48 os anos que celebramos, em 2022, do 25 de abril de 1974.

Os tempos passam, as novas gerações surgem e é inevitável não fazer uma retrospetiva desses tempos face aqueles que agora decorrem.

Faço parte de uma geração que nasceu e cresceu em liberdade. Parte daquilo que sei sobre o 25 de abril de 1974 foi-me transmitido pelos mais velhos, por aqueles que viram muitos dos seus entes queridos fugirem do país clandestinamente devido à perseguição política, por aqueles que se envolveram em movimentos estudantis de resistência e que por isso foram presos, por aqueles que eram obrigados a partir para África, deixando para trás as suas famílias, para combater em condições desumanas e que regressavam com fraquezas físicas e psicológicas ou até mesmo sem vida.

São memórias desses anos que me foram contadas, e que nunca vou esquecer mesmo que não as tenha vivido. São também essas memórias que devem ser recontadas para que o significado desta data se mantenha vivo, sendo que é também essa a missão da minha e das vindouras gerações.

Comemorar esta data é honrar o regime democrático em que vivemos, fundado nas revoluções de abril de 1974 e de novembro de 1975.

Comemorar o 25 de abril é também prestar homenagem a todos aqueles que lutaram e resistiram a um regime ditatorial, a todos aqueles que naquele dia em nome do Povo e para devolver ao Povo a liberdade e a condução dos seus destinos, lutaram. Provaram que a liberdade é mais forte do que o medo!

Em vésperas de mais um aniversário do 25 de abril está (ou devia estar) na hora de refletir: o que é a liberdade? A liberdade de expressão, a liberdade política, a liberdade de pensamento, a liberdade de associação, entre tantas outras.

Sou assumidamente contra qualquer tipo de censura e tenho dado por mim a refletir se estaremos aptos a usufruir, principalmente, da nossa liberdade de expressão. Atualmente temos questões bastante pertinentes em cima da mesa: diplomacia internacional, desenvolvimento e sustentabilidade ambiental, mobilidade, entre outras. E por isso, somos diariamente inundados de opiniões, melhor ou pior fundamentadas, com vasto ou limitado estudo ou domínio aprofundado, mas importando apenas não deixar em branco o espaço opinativo, dizendo qualquer coisa. Como se de uma moda se tratasse.

É neste cenário que muitos colocam uma opinião à frente do civismo, do respeito pelo mais próximo, da empatia, da boa educação e até mesmo da própria liberdade de expressão. Mesmo quando existem convicções fortes e fundamentadas, essas não podem nunca toldar a capacidade de ouvir e tentar compreender os restantes interlocutores.

Desta forma, não seriam as coisas diferentes se acolhêssemos aqueles que têm um ponto de vista diferente e que, à exceção de muitos, passam a sua mensagem de forma respeitosa e construtiva? Não digo concordar, mas sim aceitar que vão sempre existir pessoas com ideologias e conceções distintas das nossas e daqueles que maioritariamente nos rodeiam. Por mais que sejam posições abomináveis, não é com ridicularização ou com tendências de clubismo – “o nós contra eles” – que se cultiva a harmonia e muitos menos que se alcança soluções para os reais problemas do hoje e para os desafios do amanhã.