Em 1992, o filósofo nipo-americano Francis Fukuyama publicou o livro O Fim da História e o Último Homem; uma obra extremamente influente no seio das elites globalistas dos meados dos anos noventa. Esta obra foi escrita no rescaldo da implosão da União Soviética, num momento em que se impunha triunfalmente o demoliberalismo de feição capitalista em todo o globo. Com a queda do jugo soviético, caía igualmente uma alternativa. Para Fukuyama, era o fim da história: o homem chegava ao último estágio da evolução intelectual humana, sob os auspícios da democracia liberal de tipo ocidental; a seu ver, o modelo civilizacional mais bem-sucedido que a espécie humana tinha concebido. Para o filósofo, o mundo abraçou a “alternativa vencedora”, rendendo-se às virtudes do capitalismo, da democracia, da globalização e da liberdade individual e económica. Não havia melhor. A razão parecia estar do lado dos neoconservadores. Após a queda do muro de Berlim, tinha-se de pedir desculpa por se ser marxista.

No final do século de novecentos, tudo parecia alinhar-se com a retórica de Fukuyama. As democracias pareciam inimputáveis e as sociedades ocidentais tornaram-se essencialmente lúdicas. O mundo livre expandia-se. O ideário democrático tinha cada vez mais adeptos e entusiastas, impondo-se noutras latitudes. Acreditava-se que a democracia era à prova de bala e que esta responderia a todos os desafios da quarta revolução industrial.

O mercado parecia resolver tudo. A paz, a prosperidade, o emprego e o progresso, eram orquestradas por um deísmo mercantil, ora pela mão invisível de Adam Smith, ora pelos gurus da escola económica de Chicago. Vaticinava-se que a globalização e o liberalismo económico iriam atenuar o choque de civilizações; as sociedades cosmopolitas enredar-se-iam numa gloriosa e reverberante Babilónia. A rede de dependências económicas, promoveria eficazmente a cooperação, a paz e progresso entre os povos. O cidadão deste admirável mundo novo, podia, sem sair da sua comunidade, beber uma cerveja belga, conduzir um carro alemão, comer um pho vietnamita e ver uma sitcom norte-americana no conforto de uma casa mobilada ao jeito escandinavo. A tal aldeia global.

Trinta anos depois, podemos confirmar que Francis Fukuyama estava, em grande medida, errado. No início da década de vinte do século XXI, as democracias estão em perigo, o mundo está menos globalizado, os valores ocidentais estão em claro declínio e o mercado livre não fez a sua magia, como esperado – aliás, falhou várias vezes. Os regimes demoliberais de tipo ocidental têm agora uma outra alternativa contrastante: os autoritarismos. O leninismo de mercado chinês, que combina um fortíssimo crescimento económico com um estado orwelliano, apresenta-se como um perigoso modelo alternativo. Ironicamente, após a vitória do mundo livre em 1945 e em 1991, o mundo autoritário reafirma-se novamente, com os seus idiotas úteis e os seus papagaios.

Após a pandemia e o aventureirismo de Putin, o mundo fechar-se-á e novas cortinas de ferro rasgarão o mundo, formando-se novos blocos económicos. Os estados almejarão a autossuficiência, na energia, na indústria militar, no setor alimentar e na transição digital. Reemergirá uma nova guerra fria, entre o mundo livre e o mundo autoritário; entre a anglo-esfera e a sino-esfera; entre o pluralismo e a unicidade; entre o princípio e a eficácia. Talvez a invasão da Ucrânia seja premonitória neste sentido. Caminhamos para um novo abismo.

Tal como Fukuyama, fomos demasiado otimistas durante muito tempo. Tomamos o modelo demoliberal como garantido e recomendável. Puro engano. Fomos ingénuos. Esperam-nos tempos de paranoia, de corrida às armas, de inflação e de penumbra, enquanto vemos o pacifismo e a globalização a definhar. A batalha entre o mundo livre e o mundo autoritário já começou. Começou a 24 de fevereiro de 2022. O fim da história e o último homem ainda estão por cumprir.