Por: Alberto de Pinho Gonçalves

O segundo quartel do século XIX, foi um período muito conturbado (mas também de mudança), em Portugal, com a denominada revolta da “Maria da Fonte” ou “Patuleia”, na década de 40.

Arouca não fugiu à situação que então se vivia no País.

Sobre esse período, a correspondência trocada entre o Administrador do Concelho e também Presidente da Câmara, António Gomes do Vale Quaresma, do Outeiro, Moldes, do ano de 1845, em manuscrito de cópias dos ofícios[1], encontram-se notícias curiosas, sobre o que se passava em Arouca, naquele ano.

Foi uma década em que Portugal tinha um Governo de “direita”, sob a égide de Costa Cabral.

Logo no princípio, aparece a acusação ao Juiz de Direito da Comarca, há poucos anos criada (reforma de 1841), que se depreende que ele não era nada afecto à situação política vigente. As palavras do Administrador são evidentes:

«Cumpre-me participar a V. Ex.cia que havendo eu mandado affixar nos lugares públicos deste concelho (nos sítios do estilo) as Proclamações impressas q tive a honra de receber de V. Ex.cia no correio de 28 de Junho último; acontece, que a que se affixou na porta dos Paços do Concelho apareceu immunda, e inteiramente suja de excremento de Porco na manham de 2 do corr.te. E deste aconticimento estou a proceder á competente investigação. – Podendo já declarar a V. Ex.cia que a opinião publica é bastante pronunciada = em que fôra isso feito d’ordem do actual Juiz de Direito d’aqui = Deos Guarde a V. Ex.cia = Arouca 3 de Julho de 1845 = Il.mo e Ex.mo Sr. Governador Civil do Distr.º de Aveiro = O Adm.or Ant.o Gomes do Valle Quar.ma»

«Cumpre-me accusar a recepção da C.ar =confidencial= de V. Ex.cia N.º 31 de 3 do corrente, e á cerca do seu contheudo, tenho a honra de dizer a V. Ex.cia que o Juiz de Direito desta Comarca continua incessantem.te a trabalhar publica, e escandalozamente contra o Governo em objecto de eleições; e é de supôr que elle, offerecendo-se-lhe occasião, tente empregar todos os meios para transtornar a ordem estabelecida; porem eu me julgo seguro, e tenho forças para reprimir qualquer sublevação local, que pertenda aqui fazer-se. = Deos Guarde a V. Ex.cia = Arouca 8 de Julho de 1845 = Il.mo e Ex.mo Sr. Gov.dor Civil do Distrito de Aveiro = O Adm.or A. G. do V.e Quar.ma»

Também o clima de guerrilha que existia no País, é focado na correspondência trocada entre o Administrador e o Governador Civil do Distrito:

«Accusando a recepção do Ofício de V. Ex.cia N.º 63 de 10 do corrente em que communicando-me constar que se acha organizada para os lados de Paiva, e Sanfins hũa guerrilha capitaneada p.r João Pinto Montenegro, me ordena passe eu imediatammente a informar-me do que ha este respeito, e dê prontamente as providencias adequadas (resposta) = tenho a honra de participar a V. Ex.cia que immediatamente que soube de semelhante occurrencia passei a averiguar o que havia de rialidade a tal respeito; e ate agora só tenho podido colher = que os individuos que fiseram parte da Guerrilha levantada naqueles sitios p.r occasião do cêrco de Almeida forão últimamente chamados pelo mesmo que então os comendava, e lhes derão algum dinheiro, a fim de os terem agora prontos á primeira vóz = No entanto eu vigio continuam.te á cêrca deste assumpto para providenciar de prompto como convier; e hirei dando parte a V. Ex.cia do mais pequeno movimento = Deos Guarde a V. Ex.cia = Arouca 16 de Julho de 1845 = Il.mo e Ex.mo Sr. Gov.dor Civil do Districto de Aveiro = O Ad.or A. G. do V. Q.»

O controlo político sobre a função pública, também já existia naquele tempo, como se mostra no exemplo seguinte:

«Dando cumprimento ao Offício confidencial de V. Ex.cia n.º 60 de 5 do corrente, tenho a honra de levar ás mãos de V. Ex.cia as tres inclusas relações confidenciaes dos Empregados deste Concelho, com designação dos sentimentos politicos de cada um d’elles, segundo os esclarecimentos que pude colher. A máxime dos ditos empregados, como Escrivães dos Reg.es, os dos Juizes Eleitos, os Estanqueiros p.r geralmente falando não teem côr política; – seguem este ou aquelle partido, conforme os sentimentos de seus vizinhos mais influentes. = Deos Guarde a V. Ex.cia 19 de Julho de 1845 = Il.mo e Ex.mo Sr. Governador Civil do Distr.o d’Aveiro = O Adm.or Antonio Gomes do Valle Quar.ma»

A criminalidade em meio rural, sobre questões de águas, consideradas de primordial importância para as lides agrícolas, eram muito frequentes, levando muitas das vezes a desavenças dentro da própria família.

Foi o que aconteceu na freguesia de Chave, em 5 de Agosto, daquele ano de 1845:

«No dia 5 do corrente pelas 6 horas da tarde, foi morto José Fern.es, do Lugar de Quintella, freguesia de Chave, deste concelho, com duas pancadas que lhe derão na cabeça Manoel e Bernardino, filhos de Manoel Fernandes, da Devesa, freguezia de Rossas deste concelho, de cujo delicto há duas testemunhas de vista inclusive uma criada do morto. Os delinquentes depois de perpetrarem este delicto arrastarão p.r um Lameiro abaixo o morto, e a dita criada com o destino de os lançarem a um grande barrôco; mas não conseguirão este fim em conseq.cia dos brados da referida criada, e d’outra mulher que felizmente hai apareceu: – fugirão rapidamente. – Procedi ao competente auto de investigação, que remeti ao Ministerio Publico, e fica ao meu cuidado proceder as mais averiguações necessarias para esclarecer a justiça. – O infeliz Jose Fernandes teria 40 anos de idade, lavrador, homem rustico, e não consta que fosse trabulente; e os matadores, um terá 26 anos, e o outro 30 annos, casado, e aquelle solteiro, filhos d’um outro lavrador, primos do morto, rusticos; e consta que eles se desavirão com o referido Jose Fernandes por causa de uma agua. – No dia 6 deste mesmo mes, o Juiz de Direito d’esta Com.ca Ant.o J.e Barboza J.r foi-se encontrar com o Delegado desta mesma Com.ca Sebastião Antonio Peixoto, quando ele se recolhia do exame de corpo de delicto a que foi assestir, da morte que assima menciono, e o insultou de palavras, do que se seguirião funestas conseq.cias se não fosse acudirem-lhe individuos que estavão proximos. – Nada mais occurreu na semana passada digno de mencionar-se. = Deos Guarde a V. Ex.cia – Arouca 11 de Agosto de 1845 – Il.mo e Ex.mo Sr. Gov.or Civil do Distr.o d’Aveiro – O Ad.or A G do V Q».

Muitas mais ocorrências aconteceram naquele ano. Mas o espaço de um jornal não pode ser ocupado só com estas coisas.

No entanto isto já mostra alguma coisa do que foi aquele período da nossa história, em Arouca.


[1] Arquivo da Associação de Defesa do Património Arouuense