Por: Rosa Morais

Há 48 anos, no dia 25 de abril de 1974, o mundo presenciou uma das revoluções mais importantes do séc. XX. Portugal amanheceu para o golpe militar que depôs quase meio século de ditadura, mas em vez de se ouvir o barulho dos tiros, ouviu-se a melodia” Grândola Vila Morena,” música de Zeca Afonso, censurada pelo regime, e os tiros foram substituídos por cravos vermelhos. Foi um golpe militar muito peculiar, mas de uma verdadeira revolução se tratou, pois instituiu um poder novo e bem diferente, cuja legitimidade veio a ser confirmada em eleições livres para a Assembleia Constituinte em 1975 e a aprovação da Constituição em 1976.

O dia 25 de Abril de 1974, foi o dia em que o país voltou a ser uma democracia, após 48 anos de ditadura. Neste dia houve uma revolução, em Portugal, que colocou um ponto final no regime ditatorial em vigência desde 1926. Esta revolução é para o povo português o símbolo da liberdade, um valor, essencialmente, inseparável da condição humana. A mudança de regime em Portugal com a conquista da liberdade foi fruto do empenho e da perseverança de uma geração nobre em valores imateriais e audaz no sonho de construir um país melhor. Esse momento marcou a vida de muitos de nós. O 25 de Abril marca uma página gloriosa. Muitos dos nossos conterrâneos não viveram nas trevas anteriores, tendendo, por isso, a desvanecê-las. Por essa razão, convém manter uma enérgica pedagogia da liberdade e da democracia, bens tão preciosos, de que só algumas parcelas da humanidade gozam, entre as quais nós portugueses, para nosso bem e por ter havido a Revolução dos Cravos. Mas 48 anos depois, a geração de abril, obreira da democracia portuguesa, depara-se com um novo e importante desafio – como transmitir às novas gerações o valor e a importância da liberdade conquistada numa altura em que a mesma constitui uma realidade, por todos, dada como adquirida. E pode não ser assim, e todos aqueles que viveram ativa e intensamente, de várias formas de intervenção, o antes do 25 de Abril estão hoje velhos e com os cabelos brancos.           

É preciso rejuvenescer a mensagem da liberdade. A revolução semeou em todos nós grandes esperanças e não queremos desistir delas. Devemos estar atentos a algumas mudanças que estão a fazer perder algumas referências: hoje vive-se ao dia, para o imediato, tendo em vista o sucesso e o ter a qualquer preço, desprezando os interesses do outro e o compromisso solidário entre gerações passadas e futuras, que é a garantia da dignidade humana, da sobrevivência das nações e do ser humano. A Revolução dos Cravos não se esgotou na ação militar organizada e executada pelo MFA, pois tornou-se num vendaval que percorreu o país de lés a lés, levando o povo para a rua em grandes e espontâneas manifestações de júbilo. O 25 de Abril passou a ser um marco na nossa história e nas nossas vidas: há um antes e um depois desta data mágica. Hoje, os portugueses são cidadãos livres de um país livre, podendo considerar-se privilegiados em comparação com o que se passa com muitíssimos seres humanos. A liberdade tem de se manter sempre viva. Uma parte da população portuguesa nasceu e cresceu já em plena democracia. Os mais novos têm apetência a pensar que sempre foi assim, e não foi, e que vai ser sempre assim, e pode não ser.

Não convém ignorar os perigos que para a liberdade representam alguns fenómenos que aí estão; o desemprego, a desenfreada concentração do poder económico, agravando as desigualdades sociais, a corrupção, os salários baixos e precários, a falta de habitação, a persistência dos ódios raciais, políticos e xenófobos, a destruição acelerada dos recursos naturais, provocando desastres ecológicos, o aumento do número de excluídos, de marginalizados, de desesperados, de infelizes, corroídos pela pobreza, pela droga, pelo abandono e pela solidão. Todos temos o dever de fazer o melhor por Portugal, mais do que riqueza, o desenvolvimento, a qualidade de vida, pois é nela que reside a liberdade, pois se não há paz sem liberdade, também não há liberdade sem solidariedade. Temos uma parcela de responsabilidade pelo presente, pelo futuro e pela liberdade de Portugal.

Viva o 25 de Abril! Viva a liberdade!           

Imagem :   https://pumpkin.pt/familia/lifestyle-criancas/festas-aniversarios-batizados-ferias/como-para-explicar-o-25-de-abril-as-criancas/