Os anos vão passando e algumas lutas parecem ir-se suavizando. Mas lutas serão sempre lutas e só devem ser suspensas quando são garantidos os anseios e as reivindicações de quem as defende.

No Dia Internacional da Mulher volta a surgir a necessidade de recordar a todos que o caminho ainda está longe de estar totalmente percorrido, que a meta ainda não foi alcançada e que são, ainda, milhares de milhões as mulheres que, em todo o mundo, continuam a sofrer terríveis injustiças apenas pela sua condição de mulher.

Claro que podemos assinalar e comemorar todas as conquistas alcançadas e o caminho que tem sido percorrido. Obviamente que podemos felicitar as mulheres das nossas vidas pela sua enorme força, coragem e determinação, ou pelo seu exemplo e espírito de missão e dedicação. Contudo, acredito e defendo que, mais do que um dia de festa e de distribuição de flores, este deve ser um dia de reflexão e de luta. De reflexão sobre as muitas injustiças e desigualdades que as mulheres continuam a sofrer e a enfrentar, e de luta pela defesa do muito trabalho que há ainda a fazer.

Desigualdade salarial, violência doméstica, assédio laboral, exploração sexual, trabalho forçado e precário, segregação profissional e escolar, dificuldade em aceder a cargos de decisão, violência obstétrica, casamentos na adolescência, trabalho invisível, críticas, ameaças, abusos, controlo, manipulação, etc., etc., etc.

Diz a OCDE (2021) que em Portugal as mulheres chegam a ganhar menos 22% do que os homens em empregos com as mesmas funções, estimando-se que exista uma diferença de cerca de 52 dias de trabalho não pago às mulheres pelo mesmo trabalho desempenhado pelos homens. De acordo com dados da CIG (2021) foram 26.511 as participações às autoridades e 16 as mulheres que morreram vítimas de violência doméstica. A PSP registou mais de 2.200 queixas de violência no namoro, também em 2021. E prevê-se que só daqui a 136 anos se atinja a igualdade de género no mundo, seja no que toca às oportunidades de acesso à educação e formação, aos salários, ao acesso à saúde e à participação política (Fórum Económico Mundial).

Estimulámos, desde cedo, a inteligência e o raciocínio espacial dos meninos, oferecendo-lhes puzzles, jogos de lógica e estratégia, só a título de exemplo, enquanto que para as meninas reservamos as bonecas, cozinhas e os eletrodomésticos para brincar, despertando-as para as tarefas de cuidado com o outro e com o lar. Este é só um dos poucos exemplos que insistimos em perpetuar levando, mais tarde, a uma enorme perceção de injustiça no que toca às oportunidades que são dadas aos rapazes e às raparigas, desde a sua infância, e que conduzem a consequência que são visíveis ao longo de toda a sua vida.

A competência das mulheres tem de ser provada mais do dobro das vezes do que a competência de um homem, a pressão social exercida sobre elas é de uma violência atroz, não sendo respeitadas as suas escolhas seja na vida pessoal – nas opções sobre namorar, casar ou ter filhos que são, muitas vezes, uma decisão coletiva que nem sempre valoriza a vontade da mulher, mas sim a da comunidade próxima desta; seja na vida escolar – há ainda um enorme preconceito na escolha das áreas de formação, sendo que muitas são consideradas masculinas, dificultando o seu acesso às jovens raparigas; seja no que toca ao corpo e à pressão exercida pela busca incessante de um ideal de beleza que força as mulheres a seguirem parâmetros que, muitas vezes, as violentam interna e externamente, fazendo-as perseguir uma imagem traçada por outros e à qual têm de corresponder para serem devidamente aceites, respeitadas e valorizadas; ou ainda no que toca à vida profissional onde o trabalho não pago é uma realidade que não é contabilizada, e onde o acesso a determinadas profissões e cargos está vedado porque se considera que as mulheres são menos capazes para os desempenhar.

Tudo isto conduz, não raras vezes, a situações graves de burnout associadas aos fatores inumerados em cima, com particular incidência para as dificuldades de conciliação dos vários parâmetros de vida, da pressão social, descriminações várias, insegurança, objetificação, violência e exigências da condição feminina.

Continuamos a viver num lugar injusto para as meninas, as raparigas e as mulheres. Cumpre-nos a missão de apostar na educação como chave para a transformação. Cabe-nos a todas e a todos lutar pelo fim da discriminação e das desigualdades para que, em breve, possamos olhar para o lado e sentir que mulheres e homens são tratados de igual forma, com respeito, sem preconceitos, sem desigualdade de género e sem violência, garantindo o direito à autodeterminação, emancipação e empoderamento da todas as mulheres.

Deixem lá as flores, juntem-se a nós na luta pelo fim da discriminação e pela conquista de direitos.