Um artigo sem título que simbolicamente retrata a desorientação que os portugueses sentem neste momento: guerra, inflação e democracia (ou ausência dela).

Para 2022 expectávamos: a normalização das nossas vidas, face às previsões tidas sobre a COVID-19; o crescimento económico, acompanhado de um maior bem-estar e de um aumento da qualidade de vida; que, rapidamente, fosse formado um novo governo, mais à esquerda ou mais à direita – pouco releva em sede deste artigo, após a composição da Assembleia da República aquando das eleições de 30 de janeiro passado.

Resumidamente, dois meses e uns dias após a viragem do ano e já estão furadas todas as expectativas anteriormente citadas. Analisemos.

  1. 31 de janeiro de 2022, Portugal acorda sobre uma maioria absoluta do Partido Socialista nas eleições legislativas.

O 31 iria mais longe do que o próprio dia, vindo-se a revelar num anulamento seguido de repetição do ato eleitoral no que concerne à eleição dos deputados do círculo da Europa. Veja-se que estamos a meio do mês de março e continuamos sem que a composição da AR esteja completa, muito menos empossada e pronta a iniciar trabalhos. É que se o erro que, maioritariamente, conduziu a este fenómeno fosse novo, ou até nem tivesse sido levantado noutros momentos eleitorais, poderia considerar-se compreensível – mas nenhuma das premissas evidenciadas se verifica.

Resta-nos ambicionar que isto não se volte a repetir e que, dentro de dias, tenhamos a final composição da Assembleia da República e consequente Governo para a XV Legislatura.

  • Dois anos volvidos desde o início da pandemia da COVID-19 em Portugal, a atualidade é agora marcada pela guerra na Ucrânia.

Espero que longe nos encontremos de viver algum sofrimento semelhante ao sofrimento ucraniano neste momento, contudo, perante a atualidade, uma palavra de liderança é o que se exige dos nossos líderes políticos. É que o silêncio tem predominado, sendo muito escassos e pontuais os esclarecimentos: o que significa esta guerra para Portugal e para os Portugueses? O que se discute, o que se pensa e o que se teme? São respostas a estas questões que também se exige às lideranças.

  • A verdade é que a guerra já se faz sentir nas economias, e no caso no bolso dos portugueses.

Em 2020, o PIB de Portugal caiu 8,4% e em 2021 apenas cresceu 4,9% ficando abaixo da restante Zona Euro. Em 2022, Portugal precisava estabilidade para recuperar dos dois anos de pandemia. Contudo, temos sido assombrados pelos anúncios da subida da inflação e das taxas de juro. A inflação, sinteticamente, significa um aumento generalizado dos preços. Este fenómeno implica perda de poder de compra porque, não havendo um aumento salarial proporcional à inflação, significa que com o mesmo salário e rendimentos compramos menos – e isso o leitor já tem verificado, mais não seja, no preço do combustível.

Consequentemente, e porque é também função do Banco Central Europeu garantir a estabilidade dos preços, seremos confrontados com um aumento da taxa de juro de forma a encarecer o acesso ao crédito, tanto ao crédito requerido pelas famílias quanto ao pedido pelas empresas, resultando numa redução do consumo tendo como objetivo final a redução e a estabilização dos preços.

Este fenómeno, para além da já referida redução do consumo por parte das famílias, conduz também a uma redução de investimento por parte das empresas levando a um crescimento menor, ou até mesmo a uma desaceleração da economia.

Mas isto não justifica um adiamento do crescimento económico, pelo contrário, deve revestir-se como o primordial objetivo do próximo Governo. Não é admissível que se continua a falhar com Portugal e para com os Portugueses.