Tendência faz-se sentir em todo o país

De Norte a Sul do País a venda de casas bate recordes com preços em escalada, uma vez que a procura é muito superior à oferta. Todavia, o fator preço não é motivo para os imóveis ficarem por vender, acabando os negócios que existem por ficar fechados em tempo record.

No nosso concelho o panorama é idêntico sendo que a oferta é, igualmente, muito baixa para a procura, o que propicia a preços bastante elevados para a qualidade real dos imóveis, e condiciona muito os arouquenses, que se debatem por habitação condigna e acessível ao padrão de vida local.

O DD fez uma investigação junto de um empreiteiro concelhio, uma imobiliária e uma possível arrendatária para decifrar o contexto habitacional local e que obstáculos se afiguram no setor.

“Não creio que esta situação da dificuldade em arranjar habitação esteja assim no país todo. Há uma série de investidores que estão a comprar casas, e muitas vezes acusam os empreiteiros e construtores de especulação.”

Segundo José Mendes, proprietário da construtora CFM-Construções “a verdade é que sem empreiteiros não havia construção”, ou seja, “sem aqueles que verdadeiramente investem na área imobiliária, haveriam muito menos opções.” De acordo com o investidor, outra situação que está a ocorrer são as pessoas que “efetivamente têm dinheiro, e que compram e arrecadam, muitas vezes, no final, põem no mercado ou não”.

Relativamente ao nosso concelho o mesmo acrescentou que, há longos anos atrás, se começou a construir de uma forma coesa, numa altura em que a vila estava “a crescer harmoniosamente e urbanisticamente, abrangendo os prédios da Casa Primavera/Defesa de Arouca/ Alameda/ edifício do Banco Millenium BCP e Pingo Doce, “esses foram os primeiros prédios que se fizeram em Arouca com rés do chão e primeiro andar, e, por exemplo, o edifício do Centro Comercial de Arouca que tem rés-do-chão e dois andares”.

Isto porque estabeleceu-se, naquela altura, que devido ao tamanho do Convento de Arouca, todas as construções deveriam ter apenas rés-do-chão e dois andares, “e bem!”, reiterou José Mendes. “Haviam alguns técnicos que elucidaram o Presidente da Câmara de então, que a construção se deveria proceder dessa forma,” JM concordou com esta regra foi positiva, pois deu umas características únicas à vila de Arouca, dando resposta às necessidades de então, no entanto, no seu entender, essa não deveria ser a regra urbanística nos arredores da vila.

Neste momento, na opinião do investidor, essas necessidades já não estão a ser supridas, devido a uma mudança nas regras urbanísticas de então, que estabeleceu que só se pode construir em Arouca prédios com rés-do-chão e primeiro andar. Esta situação, em vigor, no atual PDM, (que se encontra a ser revisto), afigura-se como o principal entrave à oferta habitacional em Arouca, na perspetiva do empreiteiro.  “O problema da falta de construção em Arouca está aqui. Arouca deveria crescer de dentro para fora, como um cogumelo, e dando resposta às nossas necessidades.” José Mendes mostrou indignação relativamente a quem tomou este tipo de decisão urbanística, referindo que é extremamente limitadora. “Quem é que decide que viver no rés-do-chão de um prédio de apartamentos é o melhor sítio para morar? É a questão que eu coloco.”

O empreiteiro esclareceu que a construção concelhia, a partir daí, está a ser feita, ocupando o solo disponível, com essa configuração urbanística, situação que lhe causa indignação, pois garante que os seus compradores preferem adquirir, quase sempre, o primeiro/segundo ou terceiro andar. “A própria Alameda que é o centro nevrálgico de Arouca tem os seus prédios com rés-do-chão, primeiro e segundo andar, com comércio no rés do chão e habitação no 1º e 2º andar.”

Depois desta regra estar em vigor, CFM-Construções construiu em Arouca cerca de 180 apartamentos, distribuídos por vários prédios de habitação coletiva, com rés-do-chão e primeiro andar. “O que teria acontecido se tivéssemos nos mesmos locais, nos mesmos terrenos, rés do chão e dois andares? Teríamos mais noventa apartamentos construídos, de habitação coletiva, que são os apartamentos que faltam em Arouca, são aqueles que não se fizeram! E falo apenas da minha empresa.”

José Mendes acredita que ter construído esses imóveis, com as características que acha corretas, deixaria os mesmos mais consensuais, mais bonitos, fazendo quem lá mora mais feliz.

“Toda a gente perde com esta situação, pois quando as pessoas não têm a habitação que desejam, estas procuram, e vão começar a ir para o que se denomina de “segunda vila” (Escariz), que neste momento já não tem nada a ver com Arouca, porque é mais barato em tudo. Para resumir, estamos a fazer de Arouca uma futura Drave. Que é uma terra muito bonita, mas não tem pessoas. As pessoas vão saindo de dia para dia, e numa terra onde não tem pessoas não se vive bem.”

A empresa está, de igual forma, expectante relativamente à revisão do PDM, para futuros empreendimentos. “Não sou contra a construção de prédios até dois andares, porque acho que essa devia ser a matriz para o concelho, mas, defendo também outro pormenor que era impor a existência de elevador, pois à exceção do cinema, e da clínica Fontes Mendes, não há prédio nenhum em Arouca que tenha elevador”.

O empresário acredita que é impossível desenvolver uma terra sem pessoas, “até a vila de Fajões nos ultrapassa a nível populacional. Eu tenho clientes que que me compraram imóveis em São João da Madeira, Santa Maria e Gaia, e que me dizem que nunca comprariam apartamentos no rés-do chão.”

“Andamos a brincar às casinhas em Arouca, fazemos casas para ricos e rés-do-chão para pobres e é isto! Estamos num momento que ninguém sabe como vai ser (o futuro). O meu interesse é que as infraestruturas, as ruas, os parques que se têm vindo a construir, tivessem pessoas para usufruir deles, e proporcionalmente não há! Arouca precisa de ter o seu povo cá, e precisa que eles passeiem e que vivam na vila.”

José Mendes refuta que face ao investimento público existente no concelho, a vila devia contar com, pelo menos, o dobro das pessoas a viver cá diariamente, pois esta está estendida por quilómetros, estando o centro da vila vazio. “A Alameda está vazia. É preciso planear de forma a que as coisas se resolvam. A construção em Arouca não é cara os imóveis aqui são mais baratos do que em São João, Gaia (que é onde nós entrevimos mais do que aqui)”, esclareceu.

“É geral esta falta de produto”

Ricardo Brandão, dono da RB Imobiliária, situada em Arouca, concorda que a situação em Arouca se assemelha ao resto do pais, ou seja, a procura é superior à oferta. “É geral esta falta de produto”.

Todavia, e apesar de os preços terem vindo a subir ,“devido ao mercado e à tendência, há sempre muitos interessados em adquirir imóveis. Nem sempre o cliente encontra à primeira aquilo que deseja, mas esse é também o nosso papel, procurar soluções e ajudá-lo a encontrar o que pretende.”

Relativamente aos fatores que, segundo o empresário, podem fazer com que os preços baixem são as mudanças ao crédito à habitação, que vão encurtar os prazos máximos de pagamento para os novos créditos à habitação, para quem tem mais de 30 anos, e também a nova construção de imóveis que “ajuda a aumentar a oferta e a regrar o melhor preço de diferenciação entre novos e usados.”

O que tem ocorrido no centro de Arouca é, por vezes, a compra de imóveis, na periferia de Arouca pelos interessados, “visto que os preços são mais acessíveis.” De qualquer das formas RB também fez notar que o mercado em Arouca não evoluiu de forma diferente do resto do país, “penso que os preços aqui aumentaram na mesma proporção do que tem vindo a acontecer no resto do país.

Segundo nos fez saber a imobiliária RB, a nível de procura tudo é pretendido, ou seja, não existe um tipo de imóvel que seja mais procurado que outro, “há quem procure moradia, mas também quem prefira apartamento, principalmente T2. No caso dos arrendamentos, como a oferta é muito escassa, as pessoas não procuram nada em específico, querem apenas saber o que está disponível.”

No que toca às faixas etárias, e a finalidade para a qual procuram imóveis, existem segundo a RB imobiliária, os jovens na casa dos 25 aos 35 anos, que normalmente procuram a sua primeira habitação, e maiores que 35, que geralmente são investidores/emigrantes.

“Procuro imóvel em Arouca há cerca de um mês, devido a novos projetos, sendo esta a razão da minha mudança a nível profissional”

Sandra Carvalho Alves tem 33 anos, é fisioterapeuta, e esta razão anterior é o propósito que a levou a procurar imóvel em Arouca. A jovem revelou ao DD que no que toca às opções de escolha tem-se vindo a deparar com uma escassez, nesta fase do ano, “pois o ano letivo ou mesmo a temporada desportiva ainda está a decorrer, sendo que os imóveis arrendados estão ocupados, maioritariamente, por jogadores do clube da terra, como também por alguns professores deslocados.”

Até ao momento o maior obstáculo encontrado pela fisioterapeuta tem sido os preços praticados, que refere como inaceitáveis, “devido à inflação económica que vivemos atualmente”, a mesma tem interesse em T2 e T3, em formato de apartamento ou moradia.

Quando questionada sobre se o mercado em Arouca é mais caro comparativamente com outros, quais os valores apresentados e se pretende imóvel para arrendar ou comprar adiantou que, “nesta fase inicial, será sempre para arrendamento. Os preços com que me deparo, tendo em conta que já residi noutras cidades, são elevados. Há pouca oferta e muita procura, dai ser um motivo pelo qual os preços das rendas dispararam. Valores concretos não consigo definir nenhum, no entanto, no centro da vila há oferta de T1 por 400€, T2 por 500€. Nas freguesias vizinhas já se consegue encontrar (um achado) T2 por 400€ sem garagem, ou com a casa a apresentar sinais de uso e desgaste. Tudo fatores limitantes na aquisição do imóvel.”

Sandra Alves acrescentou ainda que de todas as opções que teve oportunidade de ver e visitar, “que foram poucas, foi tudo à base de moradias, situadas no centro e arredores, (imóveis usados). Não consigo precisar que tipo de imóvel está mais disponível, pois como já disse antes, há muito pouca oferta nesta fase do ano.”

SA, neste momento, já conseguiu encontrar imóvel, tendo acrescentado que as opções que viu eram todas usadas, “com as condições básicas para residir”.

Terminou referindo que veio para o concelho para ficar, visto que, apesar de tudo, se identifica com as pessoas, que considera simpáticas e acolhedoras.

Estratégia Local de Habitação aprovada a 16 de março (2021)

Por forma a enquadrar as necessidades e as soluções em matéria de acesso à habitação adequada e capaz foi aprovada, por unanimidade em Reunião de Câmara, a 16 de março de 2021, ELH. O documento também foi aprovado em Assembleia Municipal.

Para além de um diagnóstico atualizado das carências habitacionais do concelho, este documento faz o enquadramento e dá orientação para a elaboração de uma candidatura ao Programa 1.º Direito – Programa de Apoio ao Acesso à Habitação.

Esta estratégia visa reabilitar 149 fogos de propriedade privada, 24 fogos de habitação social de gestão municipal, a reconversão de 4 edifícios municipais em habitação social (4 fogos) e a construção de 34 fogos de habitação social adequada às necessidades das famílias sinalizadas. Isto com o objetivo de obter núcleos urbanos coesos e diminuir o isolamento a “estão expostas as famílias nas áreas mais rurais”

O investimento estimado fixa-se em 18 milhões de euros, e tem um prazo de implementação de 3 anos.

“O direito à habitação encontra-se consagrado na Constituição da República, que prevê que todos tenhamos acesso a uma habitação de dimensão adequada e em condições de higiene e conforto, pelo que a ELH agora aprovada é um passo fundamental para esse desiderato”, defendeu a presidente da Câmara Municipal de Arouca, Margarida Belém aquando a aprovação do documento.

“Temos percorrido um longo caminho na melhoria da qualidade de vida de todos os arouquenses, mas ainda persistem situações de habitação que não reúnem as condições necessárias, o mercado de arrendamento e a oferta de habitação a nível local é diminuta, pelo que esta estratégia nos possibilitará ter acesso a ferramentas e instrumentos que permitirão aumentar a oferta de habitação a preços ajustados no concelho, o que será fundamental para a fixação da população, nomeadamente dos mais jovens”, reforçou a edil.

Texto: Ana Castro

Foto:CFM-Construções-Edifício de Habitação Multifamiliar-Edifício da Carriça;