Foram recentemente tornados públicos os resultados do inquérito às Práticas Culturais dos Portugueses em 2020, que pretende impulsionar a implementação de políticas culturais inovadoras. Há desigualdades sociais significativas no acesso à cultura. A idade, os rendimentos e a escolaridade são fatores que influenciam os hábitos culturais dos portugueses, sendo os mais pobres, mais velhos e menos instruídos os que menos acedem à cultura. 61% dos inquiridos não leu um único livro impresso durante um ano. A maior parte dos inquiridos não teve estímulos para a leitura em contexto familiar (que vão desde a leitura de livros a visitas a bibliotecas e feiras).

Mas, por que é que ler está acima das outras práticas culturais, sendo urgente o fomento pela leitura? O investigador José Machado Pais, um dos autores do estudo, sustenta que “existe uma correlação forte entre a leitura de livros e os restantes consumos culturais. Um leitor de livros tem uma forte propensão para se interessar por outras práticas culturais”.

Os benefícios da leitura têm sido evidenciados pela ciência e são vários. Desde logo, a leitura aumenta a felicidade, ajudando a melhorar os relacionamentos. Segundo uma investigação do instituto de Kelton Global para a Amazon, 65%, dos mais de 27 mil inquiridos de 13 países, considera que a leitura gera atração entre as pessoas.

Se, por um lado, a leitura gera mais felicidade e mais e melhores relacionamentos, por outro lado, reduz o stress. De acordo com um estudo da Universidade de Sussex (Reino Unido), ler um livro ou um jornal por seis minutos reduz o stress em 68% (mais eficaz do que a música), porque as pessoas estão inteiramente imersas e distraídas com um livro, num ambiente perfeito para o alívio da tensão. Assim, fica evidente também o papel da leitura na saúde mental. Aliás, um estudo do Centro Médico da Universidade Rush (EUA) mostrou que quem lê preserva por mais tempo as habilidades mentais. A pesquisa concluiu que quem tem hábitos de leitura e escrita tem menos probabilidades de desenvolver demência. Já investigadores da Universidade Yale (EUA) concluíram que ler aumenta a longevidade e que, portanto, leitores frequentes têm tendência (cerca de +23%) para ter uma vida mais longa.

A criatividade é outra vantagem associada à leitura. Um estudo da Universidade de Toronto (Canadá) conclui que a literatura ficcional pode ajudar no processamento de informações, sendo que a ambiguidade da ficção leva as pessoas ao desenvolvimento da criatividade.

Na Universidade Emory (EUA), concluiu-se mesmo que a leitura amplia as funções do cérebro, alterando áreas como as associadas à perspetiva e compreensão da História. E na Universidade de Toronto um estudo concluiu que quem lê é mais compreensivo com as outras pessoas, ou seja, ler estimula a empatia. Podemos referir que a leitura promove a socialização e a capacidade de discutir ideias e refletir sobre os assuntos. Uma análise de uma ONG britânica mostrou que, além de aumentar a compreensão do eu e das identidades sociais, a leitura dá conhecimento de outras culturas aumentando o capital social e, consequentemente, o bem-estar.

Em Itália, a Universidade de Pádua concluiu que as crianças que crescem com livros têm mais chances de obter sucesso (profissional e socioeconómico) na vida adulta.

E por que é que a leitura em papel é melhor? Porque é mais eficaz na absorção da informação. Um estudo da Universidade de Valência (Espanha) concluiu que há uma superioridade do papel: quando se lê em papel a compreensão do que é lido é maior, por comparação com a leitura em ecrãs. E isso até é mais notório em crianças. Segundo o investigador Ladislao Salmerón, “não é por as crianças e jovens estarem mais habituadas aos ecrãs que a compreensão é maior — é precisamente o contrário”.

Atestada a importância da leitura, fica clara a urgência de fomentar a prática, uma missão de todos e cada um enquanto partes da sociedade, bem como um desafio para os poderes políticos (Estado Central e autarquias).

Neste contexto, as bibliotecas municipais assumem um papel crucial. Estes espaços devem tornar-se atrativos para todas as faixas etárias e dar resposta às necessidades e anseios das comunidades onde se inserem. A requalificação da Biblioteca Municipal de Arouca – proposta no programa eleitoral socialista – assume aqui e agora particular relevância. E mais importante do que as condições físicas do edifício, é preciso que a biblioteca saia à rua e viva dentro da comunidade, através de políticas de descentralização como o Bibliomóvel.