Por: Margarida Rodrigues

Nicolas Frédéric Roger é um nome que certamente ficará na memória dos arouquenses e registado na história do nosso concelho, inequivocamente associado ao único instrumento musical que é também monumento nacional – o órgão ibérico do Mosteiro de Arouca.

Talvez por eu não possuir conhecimentos musicais, que muitos dirão básicos, o meu fascínio pelos músicos, e por Nicolas Roger em particular, ganhe ainda maiores proporções. Talvez esse fascínio que sinto seja um misto de admiração, de encantamento e simultaneamente uma expressão de humildade face à inatingibilidade de tal desiderato.

Retenho na memória, ainda muito viva, as parcas vezes que falei com Nicolas Roger. Sempre muito simpático, discreto, com olhar terno e afável. Um homem de cultura e amante de sentimentos e de manifestações eternas, místicas e etéreas como são a música sacra. Era um homem que não precisava de palavras, comunicava através da música, em cada nota que tocava, em cada som que prolongava ou abreviava…

Foram inúmeras as vezes que o ouvi tocar o órgão do Mosteiro de Arouca e sempre ficava absorta, quase alienada, como se a melodia me fizesse parar no tempo. Inexplicáveis momentos que me proporcionou e a tantos quantos o ouviram.

Lamentar o seu falecimento é demonstrar a ausência e a falta que dele sentimos. Continuar a falar de Nicolas Roger é homenageá-lo e manter viva a sua memória e a sua ação que se repercute através dos seus alunos, que foram vários, e que honram a sua paixão, vocação e dedicação.

Nicolas Roger viveu uma vida plena: nasceu em Paris em 1952, iniciou os estudos de piano aos cinco anos. Estudou no Conservatório de Paris Harmonia e Contraponto e obteve o 1° Prémio de Estudos Superiores de Órgão no Conservatório Nacional de Angers. Frequentou cursos de aperfeiçoamento em Saint Maximin de Provence, estágios de manufatura e restauração de Órgãos de Tubos com diversos Organeiros em França.

O seu conhecimento e mestria foi reconhecida e a partir de 1985 fez parte do Júri Nacional de Exames de Órgão, em França. Foi incumbido pelo Ministério da Cultura Francês de elaborar um levantamento sobre “O Estado de Conservação dos Órgãos Antigos de Paris”. Tocou em diversos recitais, tanto na França como na Alemanha, Holanda, Canada, Espanha, Itália e Portugal. Gravou um CD dedicado as Obras de J. S. BACH e participou como Solista em diversas Emissões de Música Barroca na Radio “France Musique” e na Televisão “Antenne 2”.

Foi Titular do Órgão de Tubos da Igreja Saint Martin – Saint Laurent e Professor de Órgão no Conservatório Nacional de Orsay, até vir para Portugal. A partir de fevereiro de 1998, foi Professor de Órgão e Organista Titular dos Órgãos de Tubos do Santuário de Fátima. Em 2005 foi convidado para um concerto durante o Festival Internacional de Órgão em Weingarten, Alemanha. Em 2007 participou no Festival Internacional de Órgão de Mafra e também foi incumbido pelo IPPAR e a Real Irmandade Rainha Santa Mafalda de Arouca para a supervisão e o acompanhamento técnico do restauro do Órgão ibérico do Mosteiro de Arouca, tendo a honra de realizar o concerto inaugural com Ivo Brandão, em maio de 2009, depois do restauro orçado em 380 mil euros, com a presença de SE o Ministro da Cultura.

Como facilmente se constata, falar de Nicolas Roger é falar do imponente órgão ibérico do Mosteiro de Arouca. Um e outro, para mim, são indissociáveis. Sê-lo-ão também para Arouca e para a Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda que muito fez para criar a Escola de Música de Órgão Ibérico tendo-o como professor.

É muito a Nicolas Roger que Arouca deve a divulgação e a relevância nacional e internacional granjeada pelo nosso órgão ibérico, pois foi um defensor acérrimo da sua excecionalidade, da sua monumentalidade, expressão artística e variedade de recursos tímbricos, com 1352 vozes e 24 registos!

A Nicolas Roger, bem-haja! Continuaremos a ouvi-lo através das melodias tocadas no órgão, que é nosso, mas sobretudo seu!