O urso russo abraçou a pobre Ucrânia, que resiste herculeamente. No momento que escrevo, Kiev – o berço das nações russa, bielorrussa, e ucraniana – arde. Há sangue, desespero e suor por toda a bacia do Dniepre. Nas urbes, nos escombros, nas estradas, nos abrigos subterrâneos, nos hospitais, nas estações de metro, nas vilas, nas aldeias, nas ruas, nos campos, nas praias, no mar, os ucranianos lutam contra a ignomínia de Moscovo. Kharkiv, a segunda maior cidade, ainda não caiu. Em Mariupol, o estandarte azul e amarelo está ainda teimosamente hasteado. E, a velha e gloriosa Kiev, a fonte batismal da civilização eslava, ainda resiste. Nenhuma grande cidade foi ainda tomada. A blitzkrieg do homem mais odiado do mundo, Vladimir Putin, está perto de se tornar um fracasso militar. O génio guerreiro ucraniano prevalecerá sobre os fetiches czaristas e soviéticos da vetusta súcia de boiardos imperialistas que é a Rússia de Putin.

Enquanto que os tanques de Putin atravessam as planícies ucranianas, a Europa embasbaca-se com uma nova guerra no seu quintal. O homem europeu esqueceu-se do seu gosto pela guerra; da sua apetência autofágica; da sua fraqueza de espírito perante o ferro e o fogo; do seu apaixonado revanchismo. Como esquecemos o delírio dos nossos generais, que, folheando os livros de história, imaginam vitórias retumbantes, como se fossem crianças a brincar com soldadinhos de chumbo. Que ingenuidade esta, a de pensarmos que a Europa do pós-guerra é uma gloriosa fénix. Os ventos da guerra assolam, uma vez mais, neste continente de face encarquilhada. Ouvem-se os tambores da guerra a leste.

O Ocidente olha para a Ucrânia com exasperação. Nas margens do Dniepre, torce-se para que os ucranianos acabem com esta escalada de loucura coletiva, nascida nos gabinetes do Kremlin. Kiev, assemelha-se por estes dias a Constantinopla: a sua queda marcará uma nova era para o homem ocidental. Abandonou-se Constantinopla, abandonou-se Kiev. Resta-nos a coragem dos homens de Zelensky para ferir o orgulho moscovita, que confia cegamente no seu gigantismo e brutalidade. Putin encontrou um povo determinado, que rejeita abraçar qualquer projeto neossoviético; que nega a submissão; que abomina o imperialismo extemporâneo; que quer abraçar a Europa e a democracia demoliberal. Os finlandeses já o fizeram. É a vez da Ucrânia.

O Putin esqueceu-se de uma das grandes lições da Segunda Guerra Mundial – as melhores tropas soviéticas eram as ucranianas. Que a fortaleza kievina não se desmorone!