Por: Cátia Camisão

Recentemente foi notícia e esteve no centro da discussão pública e do debate político a temática do feminismo, sobretudo pelo notório desconhecimento sobre esta que é uma questão fundamental num país que se quer inclusivo, justo e democrático.

Estamos em 2022, vivemos em liberdade e democracia há quase 48 anos e, ainda assim, continuamos a olhar para alguns direitos fundamentais como algo acessório e pouco valorizado. Os direitos das mulheres devem ser uma luta que nos deve unir a todos porque só quando estes estiverem garantidos poderemos prosseguir enquanto sociedade que ambiciona alcançar a sua plena prosperidade e desenvolvimento.

Mas, afinal, o que é o feminismo?

O feminismo é um movimento que luta pela igualdade de direitos e oportunidades entre mulheres e homens. É uma definição simples e que nada tem a ver com mulheres que estão contra homens ou mulheres que odeiam homens, muito pelo contrário.

Feministas são todas as mulheres e homens que lutam pela justiça e pela igualdade, que defendem o fim da violência contra as mulheres e se esforçam pela conquista da igualdade salarial e de condições de trabalho dignas. Sabemos que em 2021 as mulheres chegaram a ganhar apenas 78% do salário dos homens, com as mesmas qualificações, de acordo com as conclusões do relatório “Education at a Glance”.

Feministas são todos e todas as que lutam para que as meninas e raparigas possam ser quem quiserem no futuro, escolhendo a profissão que ambicionam sem terem de se preocupar com preconceitos ou recriminações de profissões teoricamente femininas ou masculinas.

Feministas são os que querem a eliminação da violência, da agressão e dos abusos contra as mulheres que, demasiadas vezes, acabam em morte e são desculpabilizados pelo amor dos companheiros, quando bem sabemos que o amor não é violência, medo ou morte, pelo contrário, amor é compreensão, reciprocidade e carinho. Só em 2021 foram 23 as vítimas mortais de violência doméstica em Portugal e foram mais de 26.500 as queixas recebidas pelas autoridades policiais. Todos os dias há mulheres vítimas de abordagens despropositadas e de perseguição que não o seriam se estas fossem devidamente respeitadas e valorizadas.

Feminismo é a luta pelo fim da violência obstétrica que agride física e psicologicamente muitas mulheres durante o parto, deixando marcas para toda a vida. Mas feminismo é também a defesa da valorização e distribuição justa dos cuidados domésticos invisíveis que são realizados diariamente. Um estudo recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos indica que, para além do trabalho pago, a mulher desempenha ainda cerca de 74% das tarefas associadas à casa e ao cuidado com os filhos e a sua educação, fazendo com que se sinta quase sempre “demasiado cansada” por esta situação de desequilíbrio.

As mulheres são, desde muito cedo, ensinadas a serem fortes e a tolerarem a dor, a sofrerem em silêncio e a abdicarem da sua vontade, vivendo para garantir a felicidade de quem está à sua volta – sejam eles pais, filhos, companheiros, amigos…, esquecendo-se, muitas vezes, de garantir, em primeira instância, a sua própria satisfação e felicidade. Todos conhecemos casos de mulheres que vivem em sofrimento apenas pela sua condição de mulher e é algo que assumimos como um facto consumado que não questionamos nem procuramos contrariar. Competimos entre nós como se da nossa sobrevivência se tratasse, criticamo-nos e somos as primeiras a apontar o dedo a outras mulheres quando devíamos estar unidas para que, em conjunto com os homens, encontrássemos soluções para garantir o acesso aos nossos direitos.

A crença de que as mulheres têm mais ou menos apetência para determinadas tarefas do que os homens é totalmente despropositada porque bem sabemos que os talentos ou capacidades, gostos, competências e desejos não têm género, têm vontade, esforço, trabalho e determinação.

O feminismo deve ser uma luta intersectorial envolvendo todas as áreas da sociedade, defendendo o direito a iguais condições laborais, a uma vivência plena da sua sexualidade, a uma voz clara e audível com um lugar visível na sociedade, livre da violência e de todas as formas de opressão, contribuindo para uma real emancipação da mulher.

Nenhuma mulher que acredita, defende e luta pelo feminismo quer criar um conflito com os homens, pelo contrário, o que todas queremos é que mulheres e homens se unam pelo acesso a direitos e oportunidades iguais para ambos, num espírito sincero de solidariedade, acreditando que o sucesso de uns, é o sucesso de todos.

As lutas feministas são lutas de todos e devem continuar a existir até que esteja garantida a igualdade, a liberdade, a segurança, o respeito, a dignidade e a equidade entre todas e todos.