No passado dia 9 de fevereiro Adília Ribeiro, aquela que é uma das maiores artistas do cantar ao desafio nacional, recebeu o Discurso Directo na sua casa, em Moldes, para aí nos contar um pouco da sua particular história de superação como mulher, mãe e sobretudo como cantadeira num género Musical muito peculiar.

Início da carreira e a ligação ao Grupo Etnográfico de Moldes

A ilustre Cantadeira do desafio começou por adiantar que iniciou a sua carreira a atuar no Grupo Etnográfico de Moldes com figuras conhecidas como o Pelote, Vinagre etc, e, que, com esta associação viajou por muitos locais da Europa. “O meu primeiro contacto com a Música foi no Grupo Etnográfico de Moldes como cantadeira. Já não me recordo em que ano, mas foi desde muito nova, pois já a minha mãe lá dançava. Juntos percorremos todas as festas que possam imaginar por essa serra fora, desde Arouca até Vale de Cambra, e não só.”

“O meu início nas desgarradas foi em 1970, já lá vão 52 anos.”

Juntamente com o “falecido Vinagre”, e por insistência do mesmo, participaram num dos grandes festivais de desgarrada do país, em Guimarães. “Foi aí que tudo se desencadeou para que eu percorresse o caminho nas desgarradas.”

 A artista também referiu que chegou mesmo a participar, igualmente com Vinagre, numa homenagem que o Município de Ovar realizou para uma famosa cantora ao desafio dessa região, foi nessa homenagem, onde estavam reunidas figuras ilustres do Cantar Ao Desafio Nacional, que Adília espalhou ainda mais o seu dom, e ficou ainda mais conhecida dentro deste género musical.  A partir desse momento nunca mais parou.

De referir que, na altura, em que artista de Moldes começou a dar os primeiros passos na desgarrada, já se falavam em algumas artistas do género em Portugal (mas não muitas), tal como Maria Celeste de Ponte de Barca, e Irene de Passos.

Particularidades do Cantar ao Desafio

Quando questionada sobre as características do cantar ao desafio que o tornam um género musical tão apreciado pelo público, a mesma admitiu que é o facto de as pessoas estarem à espera do efeito surpresa da resposta, visto que o género é cantado sempre por duas pessoas. A cantora admitiu mesmo, que o tema mais apreciado pelo público é o de cariz sexual, “eles estão sempre à espera do que vamos responder. A sua graça imaginativa e o poder de improviso para desafiar o colega que está ao nosso lado, seja ele homem ou mulher”, declarou AR sobre o que torna este género tão apreciado pelo público.

Os melhores artistas com quem dividiu o palco e a candidatura do “Cantar ao Desafio” a património da Unesco

“Na minha humilde opinião e também pelo meu percurso, apanhei em palco grandes colegas e cantadores da desgarrada, tais como: Armando Marinho de Ponte da Barca, o já falecido Cachadinha, Domingos da Soalheira, Carvalho de Cucana, Duarte da Póvoa de Lanhoso e, surpreendentemente, o Vinagre de Moldes. “

Sobre a elevação do Cantar ao Desafio a Património da Unesco a cantadeira declarou, “Concordo com a candidatura do género a património da Unesco”, deixando algumas reservas sobre a equipa que está a liderar o projeto de candidatura, todavia sem acrescentar mais nada. “Acho também que o cantar ao desafio, assim como a cultura no geral em Portugal não são muito valorizados,” não obstante a quantidade de fãs e seguidores que o género move.

“Nos inícios da minha carreira, cantei mais a Norte, principalmente no Minho. Depois percorrei todo o país e a seguir veio o estrangeiro, América, Canadá, França, Suíça, Luxemburgo, Brasil, Espanha e algumas ilhas das caraíbas, sem referir muitos outros.”

A viagem que referiu que fez às Caraíbas, mais precisamente, à ilha de S.Barts foi, para Adília Ribeiro, a que mais satisfação lhe causou devido a ser um local paradisíaco, no qual passou momentos incríveis. “Foi o local onde mais gostei de ir, porque vi lá coisas que não vi em mais nenhum lugar do mundo, levei a minha filha Nádia, e recordo que nessa viagem também foi o Quim Barreiros e a família. Depois fui à Venezuela, e desse país não guardo muito boas recordações, andávamos sempre com receio que pudesse acontecer algo devido à criminalidade. Do Brasil também tenho muito boas recordações.”

Perspetivas para o futuro

Adília Ribeiro, adiantou ao DD que enquanto a saúde lhe permitir vai sempre cantar, “tive alturas na minha vida em que queria descansar, mas as festas eram tantas que pouco descansava. Agora com o Covid, o número de festas nem se compara ao que era antes desta doença mundial”, confessou.

A artista declarou ainda que raramente faz festas repetidas, todavia, que existem sempre aquelas nas quais participa todos os anos, devido à importância que têm.

No próximo dia 26 de março Adília Ribeiro vai ser homenageada em Santo António de Mixões da Serra, na freguesia de Valdreu em Vila Verde, “A homenagem que estão a organizar para mim será organizada pelo meu grande amigo Manuel Sameiro, e terei todo o gosto em ter ao meu lado muitos colegas e amigos de anos de cantigas. Agradeço desde já ao Manuel Sameiro, e a todos os que participaram nesta homenagem”.

Já em jeito de conclusão e quando questionada qual a sua ligação a Arouca e se gostava da sua terra Adília Ribeiro desta forma:

A cantar ao desafio

Pouca gente me ganha

Arouca é terra de pau duro

De onde sai a castanha

Sou filha das terras de Arouca

Sou uma mulher de raça

Faço assim uns trocadilhos

Tudo isso para ter graça

Faço rimas, faço quadras

Foi assim a vida inteira

Com muita verdade à mistura

E sempre na brincadeira

Arouca terra mais linda

Em tudo tem o seu encanto

Sinto-me feliz e mais ainda

Por ouvir falar dela com espanto

Texto de Ana Castro

Fotos: Carlos Pinho