Por: Margarida Rodrigues

Residir no concelho de Arouca é um privilégio, tendo em conta a paisagem, o clima e as características de ruralidade ainda relativamente preservadas, mas é também um esforço acrescido, tendo em conta a política salarial baixa, relativamente aos restantes municípios da Área Metropolitana do Porto, e a dificuldade no acesso aos serviços decorrente da dispersão geográfica e da diminuição de densidade populacional.

Sabemos, de antemão, que em territórios de baixa densidade populacional e com taxas de envelhecimento elevadas, é mais difícil tornar sustentáveis serviços, mesmo que considerados básicos. Basta pensarmos que dificilmente Arouca poderá assegurar redes sustentáveis de cuidados de saúde, de transportes públicos, de saneamento e de água. Também é difícil captar investimento empresarial, tendo em conta a competitividade de municípios como Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Santa Maria da Feira.

Apesar destes constrangimentos, os arouquenses não se têm resignado e têm lutado por se manter residentes e trabalhadores no concelho, ainda que isso acarrete diminuição do lucro empresarial e do poder de compra dos funcionários. De facto, não adianta negar: segundo a Pordata a população de Arouca é a que tem menor poder de compra de toda a AMP.

Não será preciso ser especialista em matemática para se perceber que, com os salários baixos e os custos a aumentar, o que sobrava ao fim do mês é agora mais diminuto. Os preços da água, da eletricidade, do gás e dos combustíveis (gasolina e gasóleo) são exorbitantes e levam a maior fatia do salário, logo depois dos encargos com a habitação.

Os salários mais baixos, esses, aumentaram um pouco, mas se tivermos em consideração um salário médio, de um professor em início de carreira, esse não é revisto há cerca de 20 anos! Falta rever os salários intermédios, caso contrário vamos assistir ainda mais ao agravamento do fosso entre pobres e ricos, com a extinção da chamada “classe média” que é a trabalhadora e a que suporta o sistema, com as suas contribuições.

Do ponto de vista social e económico, custa-me a perceber que a classe que mais desconta será a que menos benefícios terá, em proporção, se pensarmos, por exemplo, na reforma. Quanto à atualização salarial deste ano, esta mais me parece uma estratégia de marketing, pois o aumento salarial é quase todo absorvido pelo aumento dos escalões e do imposto em sede de IRS. Os salários base aumentam, mas a liquidez continua a mesma, ou quase… Também me custa a perceber que funcionários com carreiras de mais de 30 anos recebam o salário mínimo nacional… Onde está refletido o direito à progressão salarial?

Do que Arouca precisa é de oportunidades e ofertas de trabalho bem remunerado, de fixar fábricas competitivas, por exemplo a indústria de moldes, que garantam emprego à mão de obra jovem para que esta não tenha de emigrar e, assim, possa constituir família e continuar a cá residir. Essa deve ser a emergência dentro das prioridades, porque onde não há trabalho, não há rendimento, nem população, nem sustentabilidade nem competitividade.