Por: Cátia Cardoso

Está feita, e acessível a digitalização dos jornais locais com edições do período entre 1905 a 1974, ou seja, desde a monarquia até ao final do Estado Novo, altura em que iniciamos um caminho democrático que trilhamos até hoje.

Esta medida parte de uma parceria do Município de Arouca com a Associação para a Defesa do Património Arouquense (ADPA), coletividade que tem em sua posse os periódicos e que se dúvidas houvesse são a clara prova de que a associação cumpriu a missão a que se propõe no próprio nome, defendendo e salvaguardando o património local.

São 3.850 edições e 11.400 páginas de jornais, que incluem títulos como A Gazeta de Arouca, Notícias de Arouca, Povo de Aveiro e A Defesa de Arouca. Além disso, é possível consultar o arquivo municipal, que inclui, por exemplo, documentos relacionados com a administração dos concelhos (de Arouca e dos extintos Alvarenga e Fermedo).

E, ainda que possa haver aspetos a melhorar para facilitar a pesquisa (como menos cliques para abrir uma só edição), é possível procurar em cada jornal por palavra (pesquisa em OCR), o que, por certo, vai facilitar a vida aos investigadores da história local (e a curiosos e sedentos de conhecimento).

As políticas culturais devem pressupor a democratização do conhecimento e o acesso a estes documentos é uma medida efetiva que assenta nessa lógica. Investir na cultura é promover a história de uma região e essa promoção, para ser eficaz, tem de estar ao alcance de todas as pessoas.

Esta parceria do município com a associação começou em 2020, no anterior mandato, e apresenta agora os primeiros resultados, sendo exemplo também 1) do trabalho que a autarquia procura desenvolver com as coletividades locais, às quais reconhece o trabalho desenvolvido e o valor que têm no contexto regional; 2) da sensibilidade cultural do(s) executivo(s) de Margarida Belém que, contrariamente ao que por vezes querem fazer passar, vai muito além de obras físicas e de requalificação (não obstante estas também serem necessárias e importantes na implementação de políticas para a cultura).

As ameaças à democracia combatem-se com conhecimento e na imprensa local encontram-se preciosas informações que alavancam o saber sobre a história da nossa comunidade. Deste modo, poderemos ficar a conhecer melhor quem somos, de onde nos movemos e questionar para onde pretendemos caminhar agora, neste presente onde se constrói o futuro.

‘Folheando’ o espólio digitalizado encontramos crónicas jornalísticas sobre as celebrações da padroeira Rainha Santa Mafalda e da Senhora da Mó, sobre os primeiros anos da Feira das Colheitas, e também sobre festividades que se extinguiram como as festas de São Bartolomeu.

O jornalismo sempre assumiu um papel fundamental na promoção do conhecimento, sendo inclusivamente apontado como quarto poder (ideia contestável) e pilar democrático.  O jornalismo de proximidade é imprescindível na construção da história local, pela cobertura que faz (ou deve fazer) das nossas manifestações socioculturais, do desenvolvimento do nosso território, do registo das transformações da nossa comunidade.

Há, contudo, que ter em conta que uma parte substancial das edições disponibilizadas foi censurada, pelo que, as pesquisas que efetuarmos devem ser realizadas com espírito crítico e a capacidade de questionarmos os alegados factos.

De resto, a digitalização da cultura (pelo menos daquela que dá para digitalizar) deverá reforçar-se nos próximos anos e as oportunidades do Plano de Recuperação e Resiliência não podem ser deixadas de lado.

Não pode também ser ignorada a intervenção da ADPA na cerimónia de apresentação da plataforma digital onde estão consumados os documentos, que colocou em cima da mesa o desalento de quem teme o futuro. As suas preocupações devem ser acolhidas, pois o seu trabalho é também para e pela comunidade. E, por isso, talvez, antes de se apontar o dedo porque os mesmos dirigentes ocupam os órgãos sociais há, alegadamente, demasiado tempo, fosse talvez mais construtivo perguntar se há mais pessoas com o altruísmo de se empenharem na causa associativa e de defesa do património, bem como procurar saber o que podem cada indivíduo e entidade fazer no sentido de proteger um espólio salvaguardado por uns, mas que faz parte de uma história coletiva.