Samuel Gonçalves, e a sua visão sobre o papel da arquitetura num mundo em mutação.

Há sensivelmente um mês o atelier Summary foi eleito como um dos 20 melhores ateliers de arquitetura do mundo, votados pelo blog ArchDaily, através de um júri desta plataforma.

Situado no Porto, o Summary, cujo um dos membros é o arquiteto arouquense Samuel Gonçalves, foi incluído na lista, tal como destacou o Jornal Público, devido ao “equilíbrio entre o pragmatismo e o experimentalismo”, até porque a equipa de profissionais que nele trabalha desenvolve projetos e sistemas construtivos através da otimização do tempo e dos recursos físicos.

O estúdio, que ao longo dos últimos anos tem vindo a desenvolver um trabalho direcionado para soluções arquitetónicas e sistemas construtivos através da tecnologia de pré-fabricação, e que foi fundado no Parque de Ciências e Tecnologia da UP, participou também, em 2016, na Bienal de Veneza e foi galardoado, em 2017, com o prémio Red Hot. Em 2018, venceu igualmente o Prémio 40 under 40 European Design.

Neste seguimento o DD teve o privilégio de entrevistar o arquiteto Samuel Gonçalves para ficar a saber um pouco mais sobre a sua pessoa, a sua ligação à arquitetura, as mudanças no setor e a importância do mesmo num mundo em constante mudança.

“Não me recordo do momento em que decidi que queria ser arquiteto, mas sei que aconteceu bastante cedo.”

Samuel Gonçalves tinha entre 12 e 13 anos quando decidiu ser arquiteto, segundo afirmou. Sobretudo durante a adolescência, passaram-lhe outras opções pela mente “na altura gostava de música e de física”, no entanto, a sua decisão ficou-se por arquitetura.

Um pouco mais tarde, confidenciou ter-se aventurado noutras experiências,” estudei sempre em Arouca, até ao 12º ano, e entrei na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, onde concluí o curso. Pelo meio, ainda fiz um intercâmbio académico (num programa semelhante ao Erasmus), no Chile.

O artífice ainda adiantou ao DD que o curso de arquitetura não foi fácil pois tinha sempre trabalhos bastante duros, e ao mesmo tempo, que exigiam uma coordenação de prazos rigorosa, à qual o profissional não estava habituado.Para além do conhecimento técnico, na faculdade aprendi a gerir e a cumprir prazos, algo que até hoje mantenho como um fator essencial na minha prática profissional.”, reforçou.

“A Arquitetura é tudo isso: é a disciplina que organiza o espaço, que decide sobre ele, que o torna acolhedor, funcional e resiliente.”

Para Samuel Gonçalves esta arte é a responsável por dar forma aos espaços e aos edifícios onde as pessoas vivem. No entanto, segundo o mesmo, esta desempenha igualmente uma função técnica, no sentido em que garante o cumprimento de um enorme conjunto de normas, cada vez mais complexo, que incorpora questões “tão importantes e tão diversas como a sustentabilidade ambiental, a acessibilidade a pessoas com mobilidade reduzida, o conforto térmico e acústico, entre muitos outros fatores que temos de ponderar nos nossos projetos.”, reforçou.

“A contratação de um arquiteto não revela necessariamente o reconhecimento da importância da arquitetura. Há clientes que contratam arquitetos simplesmente porque são obrigados a fazê-lo”

Neste ponto o arquiteto quis referir que ainda existem clientes que só contratam arquitetos porque existe essa obrigatoriedade, devido à maioria dos projetos de licenciamento necessários para a construção ou reabilitação de edifícios exija a elaboração de um projeto de arquitetura. Todavia, SG acredita que estes sejam apenas uma pequena parte e que, cada vez mais, existe uma consciencialização por parte da sociedade portuguesa sobre a importância da arquitetura. “Não só para garantir um certo nível de qualidade dos nossos edifícios, mas também, para assegurar um processo de construção mais rigoroso, mais organizado e mais profissional.”

Experiência além-fronteiras e mudanças na profissão

Tive várias experiências profissionais antes de fundar o meu atelier: comecei no Chile no estúdio ELEMENTAL, já em Portugal, fiz o estágio para ingressar na Ordem os Arquitetos no gabinete do Arq. Júlio Caseiro, em Arouca, e trabalhei num gabinete de design de interiores, no Porto.”, informou o arquiteto.

Samuel Gonçalves garantiu que todas as experiências que teve nos vários locais por onde passou foram essenciais para aprender tudo aquilo que não aprendeu na faculdade. “E foi também nestes trabalhos que consegui juntar algum dinheiro para montar o meu gabinete, em 2015, cobrindo as despesas e investimentos iniciais como a compra dos primeiros computadores ou o pagamento das primeiras rendas do escritório.”

Relativamente ao volume de trabalho, o mesmo referiu que o seu atelier tem estado em crescimento contínuo, desde a criação, até agora. “Excetuando, naturalmente, o ano de 2020 em que, por motivos óbvios, tivemos uma redução pontual da faturação, entretanto já compensada.”

A digitalização que se impôs à maioria das empresas durante a pandemia, veio, num primeiro momento alterar certos aspetos na forma de trabalhar em arquitetura, no entanto, a forma de operar deste setor, na opinião de SG, será sempre a mesma, e “exigir proximidade física. “Na minha opinião, nada substitui a discussão de um projeto, cara a cara, com colegas ou com clientes, feita sobre maquetas ou sobre desenhos de grande escala onde podemos riscar.”

 “Os edifícios são responsáveis por cerca e 40 % das emissões de gases de efeito de estufa, e do consumo de energia do nosso planeta. Portanto, a arquitetura terá de ser assumida como uma plataforma central para a criação de soluções para o problema da emergência climática.”