Por: Alberto de Pinho Gonçalves

XIII – A CONSTRUÇÃO DO CONVENTO DE MAFRA

A primeira metade do século XVIII foi, em Portugal, como em vários países europeus, época de fausto, mas também, de desenvolvimento económico e cultural, com toda a exuberância da arte barroca na arquitectura, pintura e escultura, assim como na música.

Em Portugal para tal muito contribuiu a paz alcançada (depois de muitos anos para o restabelecimento da independência de Portugal em relação à Espanha), mas também as receitas das riquezas que se foram descobrindo, principalmente em Minas Gerais, no Brasil, de ouro e diamantes.

Por Decreto de 26 de novembro de 1711, o rei D. João V decide a construção de um monumental convento e palácio, com 40.000 m2, a construir na localidade de Mafra, arredores de Lisboa, na altura uma pequena povoação na Província da Extremadura portuguesa.

Tal construção consumiu uma grande parte dessas imensas receitas de ouro e diamantes, para satisfazer os caprichos do rei «magnânimo».

Apesar desse grande desenvolvimento o país, principalmente as terras do interior, continuava pobre, com escassez de muita coisa, a viver de uma agricultura medieval de subsistência, que não chegava para sustentar dignamente as populações.

Assim, havia uma grande procura de mão-de-obra qualificada, nomeadamente de artífices pedreiros, que era muito escassa, para as grandes solicitações, que vinham de vários lados: do Estado e da Igreja, mas também de muitos “endinheirados” com os negócios do ultramar, que procuravam também construir os seus “solares”.

Para conseguir trabalhadores para aquele grande empreendimento, o rei (Estado) lançou mão de trabalho forçado, nomeadamente, dos presos que estavam a cumprir penas nas cadeias de todos os concelhos do país. Principalmente os que fossem oficiais de pedreiro eram recrutados para irem para Mafra, trabalhar na obra megalómana.

Arouca não escapou a tal “recrutamento” tendo ido dois arouquenses, pelo menos, que foram obrigados a irem trabalhar nas obras.

Disso nos dá conta um livro de Autos da Câmara Municipal de Arouca.

Um deles, ainda tentou alegar enfermidades para ser escusado de tal. Mas de nada lhe valeu.

Para se certificarem que eles compareciam no local da obra, depois de soltos, tinham que arranjar fiadores que, caso eles fugissem, sofreriam as penas previstas nas leis que, para o caso, foram feitas.

Foram eles Manuel de Almeida, desta vila e António Alves, de Vila Nova, Burgo.

«Termo q fes Manoel dalm.da desta v.ª

Aos dezasseis dias do mes de dezembro de mil e setesentos e vinte e noue anos nesta villa de Arouca e nas moradas de mim escrivam a donde apareseu Manoel dalmei.da desta v.ª e dice que na forma das petiçois e despacho dellas q apresentaua, do d.or Corregedor desta Com.ca e Juis deste Con.lo fazia termo de nunqua mais usar o oficio de pedreiro, em rezam de o não puder fazer pelos males e achaques com q se acha que lhe impedem o exercicio do dito oficio, e que se o ozace nam douidaua ser condenado, e ponido pelo arbritio das justiças de Sua magestade que deos guarde mas que como se achaua imcapas de exzercitar o dito oficio de sua liure vontade e dezestia de o usar, e delle nam queria mais nada e asim q supedia a mim escriuam na forma dos ditos despachos lhe tomace este termo que assignou com as testemunhas Manoel de Souza desta villa e seu filho agostinho solteiro, e eu Antonio Lobo de Souza escriuam da Camara que o escreuj».

«Termo de fiança q derão Manoel dalmeida desta v.ª e D.os joam e Manoel v.ra da Rua darqua.

Aos vinte e coatro dias do mês de dezembro de mil e setesentos e vinte e noue nesta villa de Arouca e nas moradas de mim escriuam adonde apareceu domingos joam morador na praça desta v.ª e dice que ficaua por fiador de seu cunhado Manoel v.ra da mesma e se obrigaua a que o dito seu cunhado fosse solto e liure p.ª assistir na obra de mafra na forma que sua majestade manda e coando se não faça apresentado se obrigaua por sua pessoa e bẽs a todas as penas que forẽm impostas ao dito seu cunhado por faltas assistir na dita obra e que so ficaria desobrigado da dita fiança mandando o dito seu cunhado certidão de como ficaua na dita obra e também apareceu Antonio ferreira da uesada e dice que na forma sobredita se obrigaua e ficaua por fiador de Manoel dalmeida desta villa e satisfaze por ele todas suas obrigações e pediram a mim escrivam tomasse este Termo de fiança por que a faziam e assignaram de sua liure vontade, de que foram testemunhas Jacinto sapateiro, e seu irmão fr.co filhos de Joam ferreira sapateiro desta mesma vila que assignarão com os ditos fiadores, e eu Antonio Lobo de Souza escrivam da Camara que o escrevj».

«Termo de fiança que deu Antonio alures de V.ª noua.

Aos vinte e coatro dias do mes de dezembro de mil e setesentos e vinte e noue nesta vila de Arouqua e nas moradas de mim escrivam adonde apareseu Manoel Aranha de vila noua e dice que ficaua por fiador de Antonio alures pedreiro do lugar de v.ª noua pera lhe faça hu solto, e liure, trabalhar as obras de mafra na forma que Sua mag.de ordena e que se obrigaua por sua pesoã e bẽs a satisfazer todas as penas que forem empostas ao dito Antonio alures por falta de não chegar a ser apresentado na conducam da dita obra ele ficaria desobrigado vindo certidão de q o dito Antonio alures fora apresentado na dita obra e esta fiança fazia de sua liure vontade hasinou com as test.as asima e eu Antonio Lobo de Souza escrivam da Camara q a escreuj»[1].

Este monumento nacional, que muito nos orgulha, foi construído em parte por muitos portugueses, em trabalho forçado. Trabalho esse hoje praticamente esquecido dos portugueses.

Quando se fala do Convento de Mafra, vem sempre à memória das pessoas como seu construtor o rei D. João V, esquecendo-se que foi o povo o seu verdadeiro construtor, com o esforço despendido por todos os portugueses daquela época.

De qualquer maneira, hoje é um dos nossos orgulhos nacionais.

O autor destas linhas também já esteve “hospedado”, cerca de um mês, naquele edifício, mas no cumprimento obrigatório do serviço militar, no verão “quente” de 1975.


[1] A.M.A. – Autos de Camara e juramento dos almotacés, 1724 a1744, fls. 43 e 43v.