O comodismo e a apatia tendem a envolver-nos de tal forma que nos hipnotizam, bloqueando a nossa ação e fazendo-nos acreditar que a melhor solução é não fazer nada por considerarmos que fazer ou não fazer tem exatamente o mesmo resultado. Ficamos impávidos e serenos enquanto assistimos a verdadeiros ataques à democracia e à liberdade individual, com extremismos e populismos com tiques de autoritarismo que florescem ao virar de cada esquina. Mas lá está, o nosso comodismo e a inércia impedem-nos de ver a realidade como ela, levando-nos a crer que “afinal não é assim tão mau”, porque essas pessoas – também conhecidas por populistas, “até têm alguma razão”, uma vez que afirmam ser “a mudança de que o país precisa”. Mas não, isso não é de todo verdade e passo a explicar porquê.

Já todos sabemos que é necessário fazer mudanças. Estamos plenamente conscientes de que é imprescindível apostar numa agenda para o trabalho digno com respostas claras para a criação de mais e melhor emprego, valorizando a força do trabalho e criando condições para o aumento dos salários médios – em linha com a justiça que está já a ser feita com a subida do salário mínimo, mas também pelo fim da precariedade laboral, principalmente junto dos mais jovens – a tal geração mais qualificada e mais bem preparada de sempre, mas que lhe tem visto ser dificultado ou negado o acesso a condições condignas para uma real e efetiva emancipação. Mas sabemos também que são necessárias medidas robustas para reforçar a eficácia do nosso Serviço Nacional de Saúde, mantendo-o “tendencialmente gratuito”, como aliás sempre foi e deve continuar a ser, apostando numa cobertura deste serviço junto de todos os cidadãos, mas, também, em medidas concretas para uma resposta clara aos problemas relacionados com a saúde mental. Todos concordamos que precisamos de mais habitação e a preços justos, por exemplo reforçando a dotação e o acesso ao Porta 65, para os mais jovens, e garantindo não só a execução do programa 1º Direito, como também apostando em novas políticas de habitação para que estas cheguem a todos os que delas precisam. No que toca às políticas de educação, a aposta deve ser na garantia de uma escola pública de qualidade, ainda mais próxima e ajustada às necessidades dos alunos, com a adaptação de currículos para uma escola do século XXI, com foco na igualdade de oportunidades e na flexibilidade curricular, abrindo espaço, também, para a entrada da educação não formal neste contexto, tendo na cidadania um elemento central para a formação de crianças e jovens que se querem ativos e interventivos socialmente. A par disso surge a necessidade da criação de medidas inovadoras e reais para fixação de população nas zonas rurais, com estratégias eficazes de mobilidade, bem como o reforço de políticas de apoio à natalidade, o acesso equitativo às tecnologias e à aquisição de competências digitais, a garantia do reforço da oferta no ensino profissional, com a devida adequação entre a procura e a oferta. É, por isso, imperativo que sejam asseguradas as condições necessárias para uma emancipação condigna da juventude, garantindo que esta possa prosperar no presente para ter e ser o futuro. Mas é também necessário apostar na cultura, no combate às desigualdades, na luta contra as alterações climáticas, e é necessário, sobretudo, escolhermos bem a quem queremos entregar todas estas tarefas e desafios.

O imediatismo e a precarização de propostas, os liberalismos e as suas ideias milagrosas, os autoritarismos e experimentalismos devem ser substituídos por soluções reais, pensadas a médio e longo prazo, tendo por base um diagnóstico muito claro, com o objetivo de construir soluções sólidas, concretizáveis e robustas, que envolvam todos e todas, criando oportunidades geradoras de futuros plurais e assentes num paradigma focado no estruturalismo, nunca excluindo nem descriminando ninguém, independentemente da sua origem ou condição.

Devemos estar atentos aos toques demagogos que nos querem embalar enquanto atentam contra liberdades, direitos e garantias que tão difíceis foram de conquistar. Esta é uma luta de todos e para a qual cada um de nós tem, no hoje e no agora, uma oportunidade única para mostrar que se importa e que quer ser parte da mudança que quer ver acontecer.

Não há tempo a perder, o futuro tem de ser preparado agora, no presente, sob pena de comprometermos a nossa sobrevivência futura. Precisamos de agir hoje para redefinir estratégias capazes de alcançar a nossa sustentabilidade enquanto sociedade e, para isso, nada melhor de que lermos os vários programas eleitorais e do que nos informarmos sobre as propostas concretas de cada partido, escolhendo aquele que mais e melhor capacidades e competências tem para nos representar de forma séria e responsável.

É urgente que sejamos capazes de contrair esta realidade que nos quer engolir no seu marasmo de apatia e passividade e apenas faz disparar as taxas de abstenção. Desta vez vamos mesmo procurar assumir o nosso papel enquanto membros de um coletivo e não vamos deixar para os outros uma responsabilidade que é, em primeira instância, nossa.

Por si e por todos, no dia 30 de janeiro vote!