Muito embora os últimos dois anos terem sido extremamente fustigantes para o setor da cultura, a verdade é que, no concelho de Arouca, há associações que não se deixam vencer pelo vírus e de tudo têm feito, dentro das possibilidades, e das regras estabelecidas, para não deixar morrer costumes e tradições.

Exemplo do que acabou de ser dito foi a iniciativa promovida pelo Grupo Cultural e Recreativo de Rossas, que do dia 5 para o 6 de janeiro, e a convite da Rádio Regional de Arouca, decidiram atuar para todos os ouvintes, por forma a perpetuar a tradição do Cantar dos Reis.

A associação que desde finais dos anos 80 realizam esta atividade de início de ano (o cartar dos Reis), afirmaram ao DD que nunca apareceram em casa “das pessoas” sem aviso prévio. “O que fazíamos inicialmente era percorrer as ruas da freguesia parando nas casas que tinham mostrado vontade em nos receber. Este processo foi seguido durante vários anos, e sempre com bastante sucesso. De tal forma que nos anos mais preenchidos o cantar dos Reis prolongava-se por vários dias para conseguirmos atender a todos os pedidos. Começávamos por volta das 20h30 e terminávamos perto da 1h da manhã, continuando nas noites seguintes, sempre como mesmo horário. Ultimamente, as solicitações são já em menor número, mas o grupo marca sempre presença levando consigo a boa disposição.”, explicou Miguel Brandão vice-Presidente da associação.

O Reportório do GCRR

Nos anos 80 a associação cantava canções que o grupo de Reiseiros de Rossas já cantava pelas portas nos anos 60. Como eram ensaiados pelo “Professor Mário”, este inseriu no reportório canções recuperadas da sua juventude, do referido grupo de “Reiseiros”, do qual fazia parte. O mesmo havia, posteriormente, por forma a que o reportório ficasse mais composto por inserir canções do cancioneiro de Arouca. De qualquer das formas, todos os anos eram acrescentadas canções, quer sejam do cancioneiro, “recolhidas do concelho”, ou originais, “que alguns elementos do grupo compunham.”. Atualmente fazem parte do reportório do Grupo dezenas de canções, sendo que a maioria delas são originais.

“Não variamos as músicas em função dos ouvintes, mas sim, em função dos momentos. Temos músicas próprias para cantar à porta das casas, outras para cantar no momento que se segue à nossa entrada. Temos ainda outras para cantar enquanto comemos e bebemos, e ainda outras como forma de agradecimento e despedida, que são cantadas já na saída.”, explicou.

Várias participações em Encontros de Reis e Janeiras

Ao longo de vários anos o GCRR participou em vários encontros de Reis e Janeiras, prova disso são os vários registos de atuações que armazenaram durante anos, p.ex, no antigo salão dos Salesianos, no Mosteiro de Arouca, nos primeiros encontros de Janeiras organizados pelo Orfeão de Arouca, na década de 80. “Mas participámos também em encontros organizados por outras associações, no Burgo, em Canelas, em Santa Eulália, por exemplo. Para além desses, participámos também em vários fora do concelho: Santa Maria da Feira, Grijó, Vale de Cambra, etc…”, acrescentou MB.

A simbologia

Quando questionados sobre a importância que atribuem ao ato de cantar os Reis/ Janeiras, no início de cada ano, Miguel Brandão afirmou que a importância vai muito além do simples convívio, pois existe a partilha de culturas e tradições. Segundo o Vice-Presidente em cada canção dos Reis está detalhada uma história, “seja ela bíblica ou não. Ao cantarmos, ano após ano, estamos também a transmitir um momento marcante da história da humanidade, descrita no novo testamento ou, em algumas canções, a descrever como faziam os reiseiros quando cantavam porta a porta em tempos já idos.”

A acrescentar à simbologia o associado realçou ainda que o ser humano tende a viver em comunidade, e que é dessa forma que é feliz. Segundo o mesmo em tempos difíceis como os que atravessamos, em que” por vezes, são mais as restrições do que as permissões, estas iniciativas ajudam as pessoas a manter o ânimo, a recordarem momentos bem passados, em convívio, a lembrarem pessoas e lugares que, muitas vezes, estão já quase perdidos no tempo.”

Segundo Miguel Brandão as associações têm a responsabilidade de tudo fazer para conseguirem manter as suas atividades, por forma a que as pessoas sintam que “nem tudo tem, forçosamente, de se perder. Nós vamos tentando cumprir o nosso papel da melhor forma que somos capazes”.

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