No último ano o preço da tonelada da madeira de pinho aumentou 40% no nosso país, já o défice de matéria-prima, tal como realça o jornal Público, é de cerca de 57% do consumo industrial.  E como realçou a AIMMP (Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal) Portugal “não está a reflorestar nem a plantar nova floresta”. Desta forma o fecho de empresas “é uma ameaça real”.

Há sensivelmente um ano atrás, numa entrevista que deu ao Jornal Público, Vítor Poças (Presidente da Associação dos Industriais de Madeira e Mobiliário), relativamente ao tema, adiantou que Portugal está a fazer uma gestão ruinosa da floresta e que a escassez desta matéria-prima no nosso país estava a ditar o encerramento de serrações, assim como a crescente importação de madeira de pinho, que é usada no fabrico de paletes, embalagens, painéis, mobiliário, carpintaria, soalhos etc.

Após um ano o problema aumentou ainda mais, visto que a matéria prima continua escassa, mas a somar a isto está também consideravelmente mais cara, tanto em Portugal como no estrangeiro, o que implica maiores custos de transporte. Como se não bastasse todo o continente europeu tem vindo a ser confrontado com o aumento desenfreado dos preços da energia elétrica e dos combustíveis fósseis, combustíveis estes usados nas operações de desbaste, corte, desramação e transporte em tratores, camiões, carrinhas, motosserras, gruas etc, situação esta que está a penalizar e muito a indústria.

No fundo quem não tem aceso em primeira mão à matéria prima “e tem de arcar com toda a carga fiscal e custos de contexto elevadíssimos está a perder capacidade de competir e a reduzir margens de lucro.”, acrescentou o presidente da AIMMP ao Público.

Só resistem os mais fortes

Portugal já teve 1200 serrações, agora tem 350, pois a opção para os empresários de menor dimensão tem sido fechar as portas. No mercado da concorrência as empresas mais pequenas não conseguem repercutir o aumento dos preços da matéria prima no preço final do produto. Desta forma acabam por ficar no mercado os mais fortes.

Apesar de todos estes constrangimentos este é um setor com bastante peso na economia do nosso país, e indicadores revelados em outubro pelo Centro Pinus dizem que a o setor da madeira da madeira de pinho “continua a destacar-se pela alta empregabilidade, e que representa cerca de 80 % dos postos de trabalho nas indústrias florestais representando 57.078 dos postos de trabalho nas 8578 empresas existentes.”

Só entre 2010 e 2018 o setor cresceu em cerca de mil milhões de euros. No entanto, Vítor Poças afirmou que “não temos madeira com volume e qualidade suficiente para alimentar a produção das empresas”.

Qual é o panorama do setor na região

Floriano Duarte e Filhos Lda

A Serração Floriano Duarte e Filhos quis salientar ao DD que o setor de atividade desta matéria prima emprega mais de 3 centenas de pessoas em Arouca, e que como está estabelecida no concelho consegue realizar todo o processo (cadeia de valor completo), que vai desde o corte, à transformação até à distribuição nacional e internacional.

“Na nossa empresa, realizamos todo este processo, incluído a serração, até à produção das caixas de madeira, memoboards (quadros de cortiça), entre outros produtos.”,adirmou a chefia da empresa, sem deixar esquecer que para este tipo de indústria é apenas utilizada a madeira de pinho (Pinus pinaster) ou (Radiata).

O facto do preço desta matéria prima estar a subir drasticamente aliada à sua escassez no mercado resulta, segundo esta empresa, “numa subida de preço junto ao cliente para minimizar o impacto na atividade da empresa. Acreditamos que aumentos de mercado são especulativos e isso vai-se repercutir de forma muito nefasta nos próximos anos.”

De relembrar que há duas décadas este tipo de matéria prima era proveniente do concelho ou concelhos limítrofes e que atualmente já está a vir de Trás-os Montes e Espanha.

Na situação em concreto da Serração Floriano e Filhos esta situação ainda não se refletiu na diminuição de postos de trabalho, pois os mesmo procuraram colmatar a escassez da matéria prima com o “aumento do trabalho incorporado nos produtos e consequentemente no valor acrescentado.”

Relativamente a políticas florestais a empresa arouquense realçou que o único setor que tem políticas de gestão florestal são as celuloses e, “vemos o setor como um exemplo a seguir pelos outros setores. O setor do pinho nada tem feito. À exceção de certos proprietários florestais que têm as suas propriedades bem geridas, o resto espera para ver, a começar pelo setor público.”, explicaram. Reforçaram ainda que os baldios que têm grande potencial para a produção de pinho estão abandonados “à mercê das espécies invasoras e dos incêndios.”

O importante no momento parece ser, e segundo avançou a serração situada na Ribeira, a organização florestal e sobretudo “a valorização da fileira de pinho, através do desenvolvimento de novos aproveitamentos que evitem a destruição maciça de madeira de pinho a valores irrisórios, por exemplo os pellets.”

A região de Arouca possui 3 baldios (Viso, Srª da Mó e Lousa Alta) que se estimam em 2000ha e que em 2005, segundo a Floriano e Filhos lda possuía o melhor Pinho do Mercado. No entanto, desde que arderam, em 2005, foram fonte de receita e nunca mais houve investimento nem gestão. “Tornaram a arder em 2016 e, neste momento, são um quase deserto anárquico, totalmente ao abandono.”

Soares & Filhos lda

Luís Vieira um dos proprietários da empresa de Exploração florestal Soares e Filhos lda, partilhou ao DD que a mesma tem duas atividades em paralelo: a serração de madeira e a exploração florestal, acabando por a exploração florestal fornecer matéria prima para a serração, “quando temos excedente vendemos a outras serrações de madeiras e para a indústria de painéis.” De salientar que grande parte da matéria prima utilizada é, igualmente, a madeira de pinho (95%).

Luís Vieira acredita que o maior obstáculo ao negócio é mesmo a escassez desta matéria prima que pode originar “paragens na produção, aumentando cada vez mais os prazos de entrega e o custo do produto final.” Além de que um produto mais caro vai ter menos aceitação pela parte dos clientes, como também referiu.

Uma vez que todos os produtos da empresa são fabricados com este tipo de matéria prima Luís Vieira acredita que não se deve desistir de trabalhar com ela. No entanto, confirma que muitas vezes é obrigado a deslocar-se para outros locais, visto que, por exemplo, “nas zonas fronteiriças de Portugal existe uma enorme abundância de pinho.”

Não obstante a crise no setor LV adiantou que a empresa tem apostado, nos últimos tempos, na modernização dos equipamentos, e na ampliação das instalações e que tem vindo a aumentar os postos de trabalho. “Atualmente, o que sentimos é muita falta de mão de obra, tanto na Serração como na Atividade Florestal.”

No que toca a política de gestão florestal o empresário acredita que as que se estão a dotar são escassas e “insuficientes para reverter esta situação.”, realçando que após os incêndios, e das perdas associadas de cerca de 85 milhões de hectares, o território ficou à mercê da regeneração natural.”

Para finalizar Luís Silva reforçou que as medidas cruciais a serem colocadas em prática são a melhor triagem de madeira, por forma a “não se consumir matéria-prima de serração nas centrais de biomassa, fábrias de pellets e pinho. “A médio longo prazo, a nosso ver, é necessário promover o agrupamento de áreas florestais, no sentido de criar unidades com gestão profissional e com dimensão suficiente para serem rentáveis e de rápido crescimento”, reforçou.

Acredita ainda que o grande problema do nosso concelho, que até há poucos anos tinha abundância de pinho, foi, após os incêndios de 2005, que dizimaram grande parte do perímetro florestal, esta não ter sido reflorestada, o que levou a quinze anos depois voltar a arder, o que impossibilita uma regeneração, atualmente.