Perante a pandemia provocada pela COVID-19 e o confinamento a ela inerente, concretizaram-se problemáticas que apenas eram tidas no plano do possível, e daí é necessário retirarem-se conclusões.

Em abstrato, percebemos que é possível funcionar à distância, em rede, através de um computador ou de outro dispositivo digital, mas isso é só em abstrato.

Só em abstrato porque, em concreto, não é possível.

Não é possível, em concreto, porque as barreiras digitais são notadas e sentidas por muitos de nós, todos os dias.

Sejam barreiras relativas ao poder financeiro dos utilizadores, sejam barreiras face às zonas habitacionais rurais com baixa e rudimentar ligação à experiência digital.

É, portanto, redutor e redundante dizer-se que o acesso à tecnologia, a uma boa rede e a conexão digna com a internet é, nos dias que correm, indispensável. Redutor e redundante porque a equidade digital não é apenas e só uma questão de igualdade de oportunidades, deve estender-se e entender-se como um fator de justiça social.

Coloquemos a seguinte hipótese, e concretizando até um projeto que constava das linhas programáticas da candidatura “Agora os Arouquenses”, aquando as últimas eleições autárquicas – “Aldeias Digitais”, com primordial finalidade fixar os jovens no concelho de Arouca e reverter a perda populacional característica do nosso município – imaginemos um casal de jovens que se queira fixar em Arouca com o objetivo de concretização do seu projeto de vida, aspirando a uma maior e melhor qualidade de vida, trabalhando à distância, através de recursos tecnológicos e com necessidades de acesso a rede e internet de qualidade. Em ainda muitas zonas do Município, estes jovens não teriam condições de ligação à experiência digital que lhes permitisse realmente concretizar o objetivo exposto, só restando mesmo a opção abandonar o plano e de cá sair.

E se falámos daqueles que se querem mudar e voltar a Arouca, falemos daqueles que cá sempre vivem e que, diariamente, se vêm confrontados com a dificuldade de acesso ao mundo digital.

No passado dia 6 de dezembro, ocorreu a primeira Assembleia Municipal do mandato vigente, no ponto da ordem de trabalhos dedicado às intervenções dos munícipes, um Arouquense pediu a palavra para que, novamente exigindo respostas dos responsáveis políticos, lhe fosse esclarecido como é que ainda não há respostas claras e até um plano traçado para que, as aldeias e zonas de Arouca pouco abrangidas por rede, fibra ótica e acesso de qualidade à internet, vissem superadas esta impotência.

Impotência esta que, em tempos recentes, afetou imensos Estudantes Arouquenses no que diz respeito ao igual acesso ao ensino digital. E impotência esta que afeta, a todo o tempo, empresas e Arouquenses com práticas laborais que não dispensam a conexão à internet.

A resposta é sempre a mesma. E a verdade é que tem que ser: a principal responsabilidade sobre esta questão é do Estado Central. E o Estado Central podia e devia ter aproveitado muito melhor, por exemplo, o leilão do 5G, negociando com as operadoras a possibilidade de instalar antenas de transmissão de sinal em zonas do território que não tenham ainda uma boa cobertura de rede.

Foram feitos alguns esforços nesse e noutro sentido, não a nível Nacional, mas sim a nível Europeu, nomeadamente através do programa Europeu WiFi4EU, que tem como principal objetivo disponibilizar internet gratuita de elevada qualidade às populações e visitantes locais em zonas de interesse para a comunidade local, por exemplo em praças, parques, pontos de interesse turístico, bibliotecas, etc… contribuindo para a inclusão digital de populações ou regiões mais desfavorecidas no que respeita a estas vias de comunicação do século XXI, proporcionando um aumento de acesso a este tipo de meios que nos permitem comunicar com todo o mundo. O que aconteceu a seguir é da exclusiva responsabilidade do Município de Arouca, uma vez que ignorou por completo este programa, perdendo mais uma ocasião para conectar Arouca.

E este modus operandi é congénere ao da sinalização e devida negociação com o Estado Central acerca das debilidades de rede do Município, e que nos faz perder, dia após dia, a oportunidade de nos conectarmos devidamente com a era digital. Mas esta morosidade não surpreende, afinal: quem não sabe onde vai, qualquer caminho serve.

Texto de Fátima Pinho