“Fui sempre o que quis!” assente num lema de vida: “comer por metade, andar pelo dobro e sorrir o tempo todo.”

O Senhor Mário, ou o Senhor Mário da Farmácia, nasceu em Alvarenga, no lugar de Casais, e é por lá vive na plenitude dos seus 102 anos. A sua vida, a sua capacidade empreendedora, é motivo de regozijo para a terra e para as gentes da “princesa do Paiva”, que, inclusive, já o homenagearam. O seu busto evidencia-se no local que lhe deu o cognome. Filho de pais comerciantes foi nos negócios destes que começou a trabalhar muito novo (10 anos), revelando logo aí uma habilidade extraordinária para a contabilidade e gestão; “quando sai da escola fui trabalhar para uma loja que abri, como caixeiro, e no prazo de dois anos tinha tudo pago o que estava lá dentro”.

Durante a “bem-disposta” entrevista que concedeu ao DD, no dia 4 de dezembro, afirmou, com toda a certeza, que casou com a mulher que sempre quis, de seu nome Nazaré, referindo também que se conheciam desde crianças. Nazaré pertencia a uma família com posses, “tinha duas quintas”, e segundo o Sr. Mário era “das pessoas mais distintas de Alvarenga, era muito inteligente, fazia cinema, e era muito dotada e rica. Eu depois fui olhar pelas quintas” disse com um sorriso nos lábios. Do matrimónio “nasceram” 7 filhos, (5 raparigas e 2 rapazes), (3 médicos, 1 psicóloga, 2 professoras universitárias, tendo o filho mais velho, Hélio (advogado), já falecido. “São todos doutores, e quatro deles consegui formar antes do 25 de abril”, frisou o centenário realçando a dificuldade que havia em formar qualquer pessoa antes da Revolução de Abril, devido a ser algo duas vezes mais dispendioso do que é agora.

Como nos recordou, o Sr. Mário festejou o seu 100º aniversário numa grande festa na “Residencial”, em Arouca, e no seu 101º a comunidade de Alvarenga homenageou-o com uma placa e um busto (oferta dos seus amigos), colocadas em frente e dentro da Farmácia que adquiriu há largas décadas.

A Farmácia Galvão.

Esta é, segundo adiantou o experiente empresário, a “mais antiga de Arouca”, tento sido criada em 1903, e pertencia a Augusto Noronha Galvão, que faleceu e deixou o negócio para os filhos e herdeiros.

Situada em Trancoso, Alvarenga, foi este o negócio que o Sr. Mário viria a adquirir a Fernandinho Galvão, filho de Augusto e da sua “viúva”, a quem estava a dar, (segundo acordo), uma quantia de 300 escudos mensais para a sua sobrevivência. Quando o filho Fernando decidiu ir para Angola, em negócios (plantações de café), Mário deu-lhe o prazo de um ano para voltar, caso contrário, consumaria a proposta de compra. Tal veio mesmo a efetivar-se, devido ao não retorno do herdeiro, acabando por adquirir a totalidade da Farmácia Galvão pagando 1000 contos à outra parte (a totalidade valia 2000).

Afirmou sempre ter tido bastante confiança e intimidade com todos os médicos de Arouca, tendo mesmo ido à caça com alguns, atividade que apreciava muito. Durante a sua carreira como farmacêutico acompanhou o Dr. Manuel Brito, (médico em Alvarenga) para todo o lado, auxiliando-o em muitas ocasiões, “andávamos por todo o lado a consultar; em Noninha, S. Pedro do Sul, Nespereira, cheguei mesmo a fazer curativos sem ele, pois se eu não «acudisse» antes de ele chegar muitas pessoas morriam”, lembrando também que até chegou a fazer partos juntamente com o médico responsável.

Os testemunhos registam que o Sr. Mário da Farmácia Galvão “sempre ajudou toda a gente”, e principalmente aqueles que por necessidade não podiam pagar, “ainda hoje tenho aqui contas por saldar, mas nunca pedi dinheiro a ninguém, essas contas estão pagas e perdoadas. Não perdoava era a quem podia pagar e mesmo assim não o fazia.”

O Volfrâmio e a Guerra.

“O meu pai na altura da I Guerra Mundial já era negociante de Volfrâmio”, adiantou o Sr. Mário, acrescentando que o mesmo negociava em Alvarenga, que também tinha minas, e igualmente em Rio de Frades por intermédio “dos carniceiros”, (negociantes que eram originalmente da Farrapa, mas que depois se vieram a estabelecer nessa aldeia). O pai de Mário chegou a vender e negociar, posteriormente com os Ingleses e Alemães.

 Mário seguiu, portanto, as pisadas do pai que, como recordou, foi um homem de poder. No entanto, “não existia no mundo ninguém mais bondoso que ele”, reforçando que muitas vezes não tinha dinheiro e ia pedir para ajudar os outros, quando estes não tinham o que comer. “Tenho muito respeito por ele e a freguesia também. Era caçador/pescador/negociante, ou seja, era um homem muito ativo”, acrescentou. Continuou assegurando, “fui o maior volframista do concelho de Arouca, eu e a minha malta”, relembrando que comprava o minério em bruto aos exploradores (pilhas), e vendia-o, já separado, às embaixadas Inglesas e Francesas. O DD conseguiu apurar, durante a entrevista, que, na altura, a separadora de minério que existia em Arouca situava-se no edifício onde funcionava o cinema. 

 “Nós não tínhamos medo nenhum à guarda e parávamos sempre mais à frente, só depois vínhamos falar com eles”, relatou ao falar da sua relação com a guarda republicana. No entanto, muitas vezes, tal como confidenciou com o DD, quando tinha de ir a S. Pedro do Sul ou Viseu ia por Arouca, pois em Castro Daire havia uma “polícia manhosa, então passávamos a Farrapa, Vale de Cambra e Macieira de Cambra, e ali metíamo-nos para São João da Serra, Termas de São Pedro e só depois para Viseu, e fazíamos este percurso para fugir à polícia.”

Não perdeu a oportunidade ainda de nos contar um episódio que ocorreu numa das Minas que pertenciam ao grupo dos alemães, em Silveiras, na mina então chamada Chandante. “Eu não negociava muito com os alemães, o meu primo é que negociava com eles, mas e eu muitas vezes estava junto.”  De tal forma que numa ocasião Mário teve a oportunidade de se divertir à custa de um capataz português, que estava ao serviço dos germânicos, e que muito prejudicava o ancião, no local onde faziam os negócios, ou seja no café Leão de Ouro, no Porto, ao beber-lhe uma enormíssima quantidade de café, que ficava por sua conta, ao fazer os supostos negócios.

“Um certo dia fomos a Silveiras, eu o meu primo e um ajudante que carregava um saco que dissemos aos alemães levar volfrâmio, mas que na realidade levava “bosta seca” para os enganar e também a esse “capataz vigarista” que lá trabalhava. Ao chegar lá os guardas queriam apreender o “volfrâmio”, mas eu avisei logo ao guarda que ele não podia pegar em mais de cinco quilos, pois eu conhecia a lei e estava tabelado, e que eu sabia escrever, por isso se eles apreendessem ou pegassem na saca eu iria participar, ou seja, fazer queixa.” O senhor Mário pretendia que fosse o seu conhecido capataz, que aparentemente só lhe dava despesa, a levar o saco para a eira, onde trabalhavam mais de 200 pessoas, e assim foi. Quando ele despejou a saca para mostrar ao povo o que era, em vez de volfrâmio era “bosta seca” (risos).”

“Logo de seguida virei-me para os guardas e para o capataz e disse, olhem para ali para a Lage Negra, ali segue o Volfrâmio ide agora lá apreendê-lo!”, ou seja, o minério já estava a caminho de outra concessão. O Sr. Mário contou assim, do alto dos seus 102 anos a história daquela que foi a sua vingança para aqueles que tanto o prejudicaram. “Eu era um atrevido. Naquela altura não faltava dinheiro e não havia medo de nada.”, disse orgulhoso ao falar tempos que parecia relembrar com muita saudade.

Para finalizar ainda reforçou que “não era fora da lei, andava pela lei, mas nunca fazia as coisas para favorecer o estado.”, reconhecendo, todavia, que, apesar de tudo, a região de Arouca (Alvarenga, Regoufe, Rio de Frades) enriqueceram, e evoluíram bastante com a exploração mineira.

Conselhos para Vida.

Ao ser questionado pelo DD se fora sempre feliz, o senhor Mário respondeu “fui sempre o que quis!”, e vai-se lá saber se essa não é essa a receita para a felicidade, ser aquilo que se quer, apesar de todas as contrariedades.

Sem soluçar relembrou que o se orgulhava mais na vida foi ter-se casado com Nazaré acrescentando, com aparente orgulho, “e os filhos são o que se vê”.

Fez de seu lema de vida a frase que um bispo conhecido com ele partilhou que é “comer por metade, andar pelo dobro e sorrir o tempo todo.” Está há 74 anos à frente da Farmácia Galvão, ainda conduz, e ainda lá vai diariamente “fazer a caixa”.

Texto de Ana Castro

Senhor Mário com 3 dos seus 6 filhos,Professora Maria Luísa Soares, Dtrº Celso Soares e Maria João Soares a posar junto ao busto que os seus amigos ofereceram ao centenário;