Dezembro é um mês em que, tendencialmente, nos encontramos mais predispostos para demonstrar afetos e partilhar, para concretizar atos de solidariedade e altruísmo, fazendo sobressair o nosso lado mais humanista. Mas dezembro é também, e sobretudo, o mês em que se celebram os dias internacionais do voluntariado, da solidariedade humana e dos direitos humanos, e é precisamente por estes que quero começar.

Nesta altura do ano procuramos dar mais de nós pelos outros, estar mais atentos às necessidades de quem está perto, ajudar quem precisa, ser parte de alguma solução e contribuir para o bem-estar da comunidade. Mas será que estamos mesmo disponíveis para “fazer o bem, não importa a quem”?

A discriminação social, a exclusão e o ódio crescem diariamente, as liberdades individuais são ameaçadas por populismos, autoritarismos e desinformação que atacam a própria democracia e conduzem a situações de desigualdade e injustiça que afetam aquele que deveria ser um direito absoluto: o respeito e a garantia da dignidade humana. Vamos olhando à nossa volta e queremos, ingenuamente, acreditar que está tudo bem ou que vai ficar tudo bem, ignorando muitos dos pequenos sinais que nos vão chegando de toda a parte – desde o que acontece mesmo à nossa porta ou no outro lado da rua, até ao que acontece no nosso país, na Europa ou no resto do mundo.

Damos como adquiridas a existência de uma democracia robusta e de uma liberdade inalienável, com direitos que se tornaram inquestionáveis para a grande maioria de nós. Não queremos aceitar e não vemos como possível o facto de poder existir alguém que possa, sequer, atentar contra aqueles que são os nossos direitos mais básicos, amplamente consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem, e vamos rejeitando ou ignorando a dura realidade com a qual vamos sendo confrontados: há direitos que estão a ser ameaçados e há muitos outros que nunca chegaram a ser totalmente alcançados.

Estará a democracia blindada e livre de ataques?

Defender e lutar, todos os dias, pela igualdade de oportunidades, pela igualdade de género, pela solidariedade intergeracional, pela defesa da diversidade, pelo pluralismo, pelo fim do racismo e discriminação, pela redução da pobreza, pela liberdade política, pela justiça climática ou pelo assumir de responsabilidades individuais e coletivas, deve ser um compromisso de todos. Devemos ser exigentes e lutadores, resistir à apatia ou à resignação e ajudar a construir um futuro mais coeso, seguro, sustentável e próspero para esta geração e para todas as que se seguem, porque enquanto lutarmos pela defesa dos direitos humanos, garantimos que eles se mantêm, mas quando deixarmos de lutar perderemos a batalha pela defesa da liberdade e a da democracia.

Nem todos temos de nos envolver em grandes lutas, mas todos temos a obrigação de assumir posições de destaque nas nossas comunidades, política ou civicamente falando, por forma a garantir justiça e equidade. Não podemos ter uma memória seletiva porque já sabemos que há por aí muitos oportunistas do medo, da ignorância e da inoperância que se alimentam da desinformação e da apatia para crescerem e se transformarem em líderes da opressão, sequestradores do respeito e da dignidade, com tiques autoritarismo e repressão. Cabe-nos, por isso, aprender com o passado e com as marcas que ele nos deixou, garantindo que não se repete.

Mais do que refletir, importa agir para a construção de uma visão e ação potenciadoras de liberdade(s), de coesão, de democracia, e de justiça social, afirmando uma realidade de sonho e esperança, de confiança na nossa capacidade transformadora, eliminando as desigualdades e promovendo um desenvolvimento humano e social justo. A luta é de todos, mas os jovens, pelo importante papel de liderança que têm vindo a desempenhar na defesa de causas e no envolvimento em movimentos coletivos, devem ser um dos maiores protagonistas, amplificando a sua voz, informando, inspirando e impulsionando os seus pares e a restante comunidade para a importância da promoção e proteção dos direitos humanos, fatores essenciais para a garantia do nosso bem-estar e de um futuro melhor – um futuro que se quer presente e que, para isso, precisa de uma ação com efeitos imediatos. 

Não podemos permitir que nenhum de nós se deixe cair no mesmo erro duas vezes porque a história já nos ensinou esta lição: nunca poderemos dar nada por garantido, muito menos a democracia e os direitos humanos.

Texto de Cátia Camisão