Os cristãos, pessoas reais e concretas, sempre viveram no ambiente em que estavam inseridos, adaptando-se às condições sociais. Apesar de três séculos de perseguições, criou raízes na vida de muitos homens e mulheres que, na vida de Jesus, encontraram sentido para a sua vida.

O Cristianismo contribuiu, e muito, para a construção da civilização ocidental. Foi, e continua, um motor da construção europeia enquanto referência de identidade perante vários povos, línguas e culturas. 

O papel do Cristianismo tem sido importante em todos os setores da vida humana. Grandes princípios e comportamentos éticos são o resultado da presença dos valores evangélicos no pensamento e na ação dos indivíduos e dos povos: a afirmação do valor e da dignidade da pessoa humana, a importância da família, a promoção da solidariedade e do bem comum, a dignidade do trabalho e da justa remuneração e a importância da educação e da liberdade de pensamento.

A visão bíblica do ser humano moldou a cultura humanista da europa e do mundo. A Bíblia inspirou criações intelectuais e artísticas, influenciou leis e promoveu a paz. O Cristianismo, através das universidades, das escolas e dos mosteiros, ensinou os povos a ler e escrever. Assim, a Europa foi-se gerando e adquirindo novas formas de pensar e de agir, com também contribuiu para desenvolver uma fraternidade universal na pluralidade de pessoas e pensamentos, obrigando a todos a descentrarem-se de si, a não dominar os outros e abrirem-se à construção do futuro.

Mas esta longa história não foi sempre um mar de rosas. A Igreja conheceu períodos bem difíceis e crises aterradoras que levaram a divisões que ainda hoje estão bem visíveis e vincadas. No ano de 1054 aconteceu a primeira grande rutura, o cisma do oriente, que originou a igreja Ortodoxa. As grandes diferenças políticas, culturais do oriente e do ocidente e religiosas levaram a uma separação qua ainda se mantem hoje.

Passados cerca de 3 séculos deu-se um novo golpe. Por razões políticas, os papas passaram a residir em Avinhão, França, tal como passou a haver dois papas, um em Roma e outro nesta cidade Francesa – cisma do ocidente. Por altura do ano de 1500 surgiu o protestantismo. Mais um rude golpe.

Como forma de despertar a Igreja para a realidade atual, o Papa Francisco convocou um sínodo, do grego súnodos,-ou, que quer dizer caminhar juntos. É esse o desfio para uma Igreja com crise de vocações, com os escândalos de pedofilia, com igrejas vazias, com os jovens cada vez mais afastados, com uma linguagem e comunicação desfasadas da realidade e das necessidades espirituais dos crentes; que nada cativa e pouco oferece e uma comunidade descomprometida.

Já não basta ter as portas abertas. É preciso sair e ir ao encontro. É esta mudança de rumo que o papa desafia. Convoca a fazer um novo caminho. Redescobrir os valores cristãos e assumir as responsabilidades daí resultantes. Apela ao encontro sem formalismos, nem maquiagem, nem fingimentos. Desafia a um novo caminhar com um coração aberto aos outros e ao Outro; a escuta recíproca e o discernir para mudar.

Texto de Carlos Matos