Fundada em 29 de setembro de 1980 e com sede na Ala Sul do Mosteiro, a ADPA – Associação de Defesa do Património Arouquense, após a concessão da parte que ocupavam do Mosteiro de Arouca à MS Hotels, teve de desocupar as mesmas. As alternativas apresentadas pelo Município para “guardar” o seu espólio não são de todo do agrado de Alberto Gonçalves que mostrou todo o seu descontentamento ao DD.

“Nas conversações que tivemos com a câmara foi-nos prometido a escola de Parada em Santa Eulália, a Central de Camionagem e, para a sede da associação, a Academia de Música, quando esta saísse.”, salientou o tesoureiro Alberto Gonçalves.

Segundo o mesmo, a Academia de Música não saiu das instalações para a escola preparatória, por motivos que o próprio desconhece, isto quando já lhes havia sido prometido aquele espaço para sede. Esta situação arrastou-se até ao ponto em que a direção de património estava já a pressionar imenso e a Associação da Defesa do Património Arouquense para sair do Mosteiro e estes tiveram mesmo de abandonar, e aceitar o que a câmara tinha disponível para guardar o seu espólio.

“A escola de Parada, que é distante e junto ao monte, ficou a abarrotar pois temos alfaias agrícolas que davam para fazer um grande museu etnográfico, que estão a ocupar metade da escola, (todas amontoadas).  A outra metade está ocupada com livros, e o resto foi para a central de camionagem distribuído em duas salinhas pequenas e outra maior, que apenas servem como armazém estando tudo amontoado até cima.” Alberto Gonçalves confessou que caso queiram, por exemplo, armazenar uma edição de um novo livro não vão ter espaço para guardar. O tesoureiro da ADPA também relembrou que as várias associações que estavam no mosteiro e mudaram a sua sede para a central de camionagem também viram os seus espaços reduzidos (AECA, Associação dos Agricultores).

O associado quis sobretudo realçar que as pinturas, fotografias e outros objetos de exposição estão agora amontoados nos espaços que referiu, em condições muito rudimentares que irão propiciar a sua degradação. “A escola de Parada está de tal maneira que até no hall de entrada a Câmara andou lá a pôr um taipal para aproveitar aquele espaço, para encaixar mesas e cadeiras, e inclusive, um pequeno espaço onde estava um motor para puxar a água foi aproveitado para colocar lá fósseis”.

Na opinião de Alberto Gonçalves o Museu Municipal, que é uma adaptação do mercado, infraestrutura que sofreu obras ultimamente, podia ter sido aumentado para responder às necessidades urgentes da Associação, “entra-se no museu e não se vê praticamente nada, nesse local (no museu) só tem uma pequena canga, acontece nós temos várias cangas, que expostas, dariam uma exposição de outro nível. Só lá tem uma charrua, e nós temos várias de diferentes zonas de Arouca que no local que estão vão acabar por apodrecer com a humidade”. AB informou que no passado, quando a Associação de Defesa do património ainda estava a dar os primeiros passos, foi incentivada a recolher alfaias agrícolas e outros utensílios históricos porque, eventualmente, “o espaço iria aparecer”, estas palavras ditas por Clementina Quaresma, diretora do museu de Aveiro, e responsável pelo Mosteiro.

Na altura a associação andou a recolher objetos pelo concelho inteiro e, quando já tinham uma quantidade considerável, foi-lhes concedido, em ofício, a Ala Sul do Museu, completa. No entanto, só ocuparam a loja e o primeiro andar, e aí estiveram estes anos todos. Chegaram inclusive a realizar um projeto para fazer ali um museu, depois de feitas as devidas obras, mas nunca foi aprovado.

“Chegamos a este ponto em que o Governo faz a concessão a um privado sem primeiro ver quem lá está e sem arranjar solução para essa Associação, que foi o que aconteceu. O objetivo do programa REVIVE é a recuperação de monumentos em ruínas, mas este (o mosteiro) não estava em ruínas. E por não estar em ruínas é que houve um interessado.”, declarou o tesoureiro.

“Nós não fomos para o mosteiro de assalto, fomos devidamente autorizados. Embora as autorizações não sejam a título definitivo, a Dr.ª Clementina disse-nos mesmo que se o espaço que ocupamos até agora fosse necessário para um projeto nós teríamos sempre lugar dentro do edifício, devido ao tão vasto espaço pertencente ao Mosteiro. Até a paróquia que tinha ocupado mais duas salas para catequese, ficaram sem elas, espaços estes que efetivamente precisam, porque esse hotel vai ocupar uma área enorme.”

Alberto Gonçalves acrescentou que ainda pediu para colocar algum material nas celas que estão situadas na parte virada para o terreiro, ao pé dos antigos palratórios, que segundo o mesmo vão ser espaços mortos e até isso lhes foi negado. “Não tiveram vontade que nós lá ficássemos e estamos nesta situação. Se a Câmara tivesse, nas obras que fizeram no museu, aumentado mais um bocado podíamos lá ter colocado o nosso espólio, nem que a sede ficasse em outro lado. E aí ficava cumprido o nosso objetivo para o futuro, que era que o Arouca ficasse com o espólio exposto num museu”, finalizou.

O próprio arquivo que a Associação tem, do qual fazem parte todas as edições dos jornais que se publicaram em Arouca (Defesa, Gazeta, A voz de Arouca, Discurso Directo etc), que estão a ser digitalizados para serem consultados online, e que são coisas frágeis estão amontoados na Central de camionagem, espaço que não tem capacidade de recolher mais nada.

Texto de Ana Castro

Espólio amontoado na Escola de Parada