A vespa asiática ou vespa Velutina Nigrithorax, proveniente da Ásia (de regiões tropicais e subtropicais do norte da Índia, do leste da China, da Indochina e do arquipélago da Indonésia), chegou a Portugal, em 2011, ao distrito de Viana do Castelo (suspeita-se que através de um carregamento de madeira).

É uma espécie carnívora e predadora da abelha europeia, produtora de mel, e encontra-se a fazer estragos na apicultura, devido ao ataque às abelhas autóctones, à diminuição da produção de mel e polinização vegetal, para além de que pode, de igual forma, afetar a produção de frutos, visto que estes fazem parte da sua alimentação em determinados ciclos biológicos.

Todavia a página SOS Vespa só foi criada em janeiro de 2015 pelo ICNF, (Instituto de Conservação da Natureza), e aí foram carregadas algumas ocorrências, já do ano anterior, pelos serviços municipais de muitas autarquias do país. No entanto, esta plataforma foi extinta em 2019, passando a informação existente para a nova plataforma, a Stop Vespa, que vigora até hoje.

Segundo o Diário de Notícias e de acordo com os dados constantes aferidos pelo ICNF, considerando o intervalo temporal de 2014-2020, os distritos com maior número de ninhos são Porto, Braga, Coimbra, Leiria e Santarém, no entanto, o Porto continua a ser o distrito onde esta espécie invasora mais se tem reproduzido e disseminado. Não obstante, e segundo registos e ocorrências apurados tudo leva a crer que esta espécie invasora se está a espalhar para o sul do país.

Arouca não é exceção e muitas são as denúncias feitas, algumas realizadas mesmo por João Martins um dos maiores apicultores do nosso concelho. O jovem adiantou ao DD que decidiu dar o seu testemunho por forma a alertar para uma situação que está prestes a tornar-se um perigo de saúde pública, caso as pessoas não sejam alertadas para as medidas a adotar.

Uma vida dedicada à ciência da apicultura

“Desde pequeno que aprendi com o meu avô e ainda aprendo, todos dias, com meu pai sobre a apicultura, e esta arte basta “entrar o bichinho” para nunca mais se abandonar “esta paixão”. Quando eu tinha 13 anos o meu pai deu-me algumas colmeias e, a partir daí, foi sempre a trabalhar e a pesquisar, pois isto é uma ciência e a pessoa tem de se ir sempre informando e atualizando.”

Neste momento, João Martins e a sua namorada Joana Teixeira têm uma marca registada de apicultura e já contam com mais de 500 colmeias divididos em 16 apiários, quase todos em Arouca. “Em anos anteriores, quando as abelhas apenas se alimentavam no exterior da colmeia não precisávamos de pôr alimentação artificial, agora, com a progressiva predação da vespa Asiática, nós fomos obrigados a colocar dentro da colmeia alimento artificial para elas recorrerem de inverno.”, explicou o jovem.

O recurso a alimentação artificial só é utilizado fora da altura de produção de mel, e serve para que as abelhas tenham menos necessidade de sair da colmeia. São também colocadas umas ripes de madeira com pequenos espaçamentos por onde “supostamente” a abelha passa, mas não a vespa, tudo isto são técnicas que têm sido postas em prática pelos apicultores para minimizar os efeitos desta praga.

Um predador implacável

A vespa Velutina Nigrithorax (Asiática) chega a Portugal como já referimos em 2011, mas, há 5/6 anos atrás é quando a espécie se começa a fazer sentir mais, “este ano não sabemos porque razão está fora de controlo”, reitera JM, “todos os anos morrem sempre algumas colmeias, facto que é inevitável de inverno, devido à morte da Rainha. Depois também temos a ameaça de um pequeno ácaro que é a Varroa, parasita que também mata as abelhas, ao qual temos de fazer tratamentos para o combater.  De qualquer das formas o pior é mesmo esta vespa, pois não as deixa trabalhar, não as deixa colher alimentação. Isto é quase cada abelha que saia é capturada e levada para o ninho”, explicou João, ao mesmo tempo que a poucos metros estes insetos invasores trucidavam as abelhas que tentavam entrar nas colmeias.

Nos dias de calor a “chacina” é maior, segundo o que o DD apurou. Enquanto que no dia da reportagem cercavam as colmeias cerca de 10 vespas, quando o tempo aquece chegam a ser para cima de vinte insetos à volta de cada estrutura.

João Martins declarou sentir-se esgotado, visto que pouco pode fazer a não ser, montar armadilhas para capturar as vespas, e tentar proteger as abelhas com pequenas técnicas e utensílios. “Não tenho estudos sobre isto, mas tenho um pressentimento que a própria colmeia entra em stress, pois elas (abelhas), sabem que ao sair ou a entrar, (depois de carregadas de um dia de trabalho), vão encontrar este predador letal. Muitas vezes são obrigadas a sair para vir buscar água, ou pólen para alimentar as larvas, arriscando a vida para manter o ciclo e a colmeia delas não morrer.”

A vespa asiática tem um ciclo anual semelhaste ao de outras vespas autóctones, durante o mês de outubro cada ninho irá libertar cerca de 200 rainhas que irão acasalar e, posteriormente, hibernar até início de fevereiro do ano seguinte.

“Como muitos de nós já sabemos, lamentavelmente, a vespa asiática está presente no nosso dia a dia. Esta praga é muito resistente e adapta-se facilmente ao nosso clima causando problemas sérios para a apicultura, para a agricultura e, até mesmo, para os humanos. Se nada for feito, infelizmente, a vespa asiática irá acabar com as abelhas e, mais tarde, seremos nós a pagar essa fatura, uma vez que mais de 80% do que comemos depende da polinização das abelhas.”, informou o jovem apicultor.

Este predador alimenta-se essencialmente das abelhas, no entanto, também procura iscos açucarados. Ao alimentar-se das abelhas dizimam diariamente colmeias, fator que irá fazer com que existam cada vez menor produção de frutas e legumes.

“O que fará com que posteriormente passemos a estar condenados a consumir mel externo, de inferior qualidade, e, por sua vez, os próprios alimentos terão de ser importados, logo serão mais caros. A solução para este problema passará por começar a sensibilizar as pessoas para o perigo, informando relativamente ao que é a vespa asiática, o que fazer em caso de avistamento de ninhos, e a quem se dirigir para comunicar a localização dos mesmos para que, posteriormente, sejam eliminados.”, acabou por alertar João Martins.

 O apicultor confessou que pouco lucro tem desde que esta espécie chegou a Portugal, todavia, é a paixão que tem a esta arte que não o faz desistir.

Como agir para prevenir males futuros

Após a questão sobre aquilo que cada um deve fazer para combater este flagelo João adiantou que a solução/prevenção não é difícil, “visto que a vespa asiática sai de hibernação nos inícios de fevereiro todos devíamos preparar, um garrafão de 5 litros de água como isco, 1 kg de açúcar, 50 gr de fermento de padeiro e 1 Compal de pera, e completar com água, deixar esta mistura dois dias a fermentar num bidão sem rolha, e depois distribuir por armadilhas, no quintal de cada casa à sombra. Isto vai proporcionar a que se apanhem muitas Rainhas de vespa asiática, situação que se irá refletir, igualmente, depois com uma redução de ninhos. Quantos menos ninhos houver, menos vespas andam em frente às colmeias.”, esclareceu João.

Além desta prevenção que pode ser feita por cada um dos cidadãos cabe, segundo JM, à Câmara Municipal e Juntas de Freguesia criar e formar uma equipa presente no nosso concelho para se dedicar a esta missão, encarregues de colocar armadilhas em espaço público, e também eliminar de ninhos.

“As escolas serão também um bom meio de comunicação e sensibilização, para que os adolescentes levem a informação até aos seus familiares.

Acho que terá de ser feito um combate a nível nacional em coordenação para o controlo desta espécie invasora, para que o trabalho desenvolvido por um concelho não seja em vão, caso os concelhos vizinhos não façam nada”, alertou João Martins.

Todas os Municípios, a nível nacional, têm de agir, em simultâneo, para que haja uma diminuição da vespa. “Temos vindo a comunicar com município relativamente no que respeita à localização de ninhos, e o passar de informação à associação Nativa, que é a associação com a qual a câmara tem um contrato para a destruição dos ninhos, caso qualquer cidadão os detete. Segundo o que sei, com base na informação que dão é que já foram destruídos mais do dobro dos ninhos, do ano anterior, mas, não existe, ironicamente, uma diminuição das vespas.”, acrescenta.

João reiterou mesmo que os prejuízos associados ao ataque de vespas asiáticas têm piorado drasticamente, “temos (os apicultores) feito um trabalho gratuito de apanhar fundadoras (milhares delas), se não o fizéssemos já não conseguíamos ter um piquenique no parque, ou um almoço na varanda.  O panorama vai a caminho disso, se nada for feito a nível nacional, para ter impacto.”

Vidas humanas também têm sido afetadas

Segundo o empresário este teve conhecimento, há pouco tempo, de um vizinho que se encontrava a fazer a limpeza de um terreno perto de casa, no qual as vespas criaram um ninho subterrâneo de onde saíram algumas. Uma delas picou o rapaz (ainda jovem), este entrou em paragem cardiorrespiratória e esteve muito mal. “Demorou cerca de 10 minutos a chegar ao centro de saúde e disseram-lhe que se demorasse mais 2/3 min podia ter morrido mesmo. Pode depender de organismo para organismo, mas, nos últimos anos, podemos afirmar que se têm notado muitas mortes devido a vespas asiáticas.”, reiterou

Vários apicultores estão em vias de desistir porque já não sabem mais o que fazer, vendo o seu sacrifício da primavera e do verão a “ir por água abaixo”. “Isto está incontrolável nós podemos matar 1000 em dois dias que aparecem 2000. Deveriam haver mais estudos sobre os locais onde constroem os ninhos pois estes insetos são inteligentes e fazem ninhos em sítios estratégicos retirados nas montanhas que são mais difíceis de identificar, elas podem-se deslocar até 3 km em linha reta à procura de alimentação, podem fazer também ninhos em casas e barracos abandonados ou até mesmo na terra.”, informou JM.

“Posso afirmar que em anos anteriores, sem vespa asiática, nós quase que não necessitamos de dar alimentação artificial às abelhas, só alimentávamos artificialmente enxames muito mais pequenos, mais debilitados ou que dividíamos. Hoje em dia, sem alimentação artificial, é quase impossível vingar as colmeias de um ano para o outro. O único espaço de tempo que as abelhas conseguem andar mais livremente é entre fevereiro e junho, que é a altura em que existem menos vespas a circular. Apesar das vespas fundadoras saírem da hibernação em fevereiro, como ainda estão em início de construção do seu ninho, irão procurar os iscos açucarados, em vez de abelhas, e como ainda não têm colónia populosa para alimentar, o prejuízo visível nos apiários é menor, mas vai se intensificando com o passar dos meses, até chegar a uma altura em que necessitam de muita proteína para alimentar as larvas no ninho.”, explicou.

João Martins confessou com tristeza que, em certas colmeias, quando as ripes de entrada ficam mais velhas, e as colmeias estão mais debilitadas, a vespa chega mesmo a entrar e a matar a colmeia, por completo. Este é o tipo de situações que, segundo o jovem apicultor, “cortam o coração a uma pessoa, pois é o prato do dia por estar sempre a acontecer.

O que vai acontecer se não agirmos 

A proliferação desta espécie invasora, segundo o jovem empresário, “vai promover a que haja cada vez menos colmeias, cada vez menos produção, que vai resultar em importações de méis de outros países, para vender como seja mel nacional, o que origina a que muitas pessoas fiquem com uma ideia errada do produto que temos, quem fala do mel pode também referir outros produtos.”, declarou.

João Martins é proprietário da empresa de criação de abelhas/ produção de mel e seus derivados APISFREITA AROUCA, é vendedor da Feirinha do agricultor e luta diariamente para que não tenha de desistir da sua arte que aprendeu em seio familiar e que segundo compartilhou, “é o que mais gosta de fazer e é a atividade que um dia gostaria de se dedicar a tempo integral.”

Texto de Ana Castro

vespas asiáticas a atacar uma colmeia
Produtos APISFREITA que João Martins e a sua namora Joana vendem na Feirinha do Agricultor