A Igreja, enquanto instituição religiosa e social, desempenha ainda hoje um importante papel na educação, sociabilização e no auxílio aos mais pobres e mais desfavorecidos.

Pela Igreja e pelos valores cristãos, dão a cara inúmeras pessoas que são exemplo de abnegação, de dedicação e de solidariedade. São exemplos paradigmáticos desse altruísmo cristão as missões humanitárias e as congregações religiosas que colocam a ajuda humanitária acima de tudo. A Igreja é também polo disseminador de cultura, promotor das artes, detentora de um património único no mundo.

Com uma organização extremamente complexa, hierarquicamente escalonada, a Igreja conta com um vasto universo de servidores, sendo árdua e exigente a tarefa de controle e de monitorização da estrutura humana que a compõe e define.

Erigida sob preceitos e dogmas rígidos e desatualizados, a Igreja deverá acompanhar a modernidade e atualizar os seus padrões de comportamento. Refiro-me especificamente aos padres católicos que estão no centro nevrálgico de toda a polémica causada por indícios de crimes sexuais contra menores e adolescentes…

Vieram recentemente a lume escândalos sexuais na França, sendo estimados em cerca de mais de 200 mil os casos de abusos sexuais sobre crianças e jovens nos últimos 70 anos por padres, professores e catequistas, o que justificou que a Conferência Episcopal criasse uma comissão independente para investigar eventuais crimes de pedofilia.

Vieram também a público escândalos semelhantes nos Estados Unidos, na Bélgica e na Alemanha, o que obrigou o Papa Francisco a admitir o problema e a pedir perdão às vítimas. Estes comportamentos criminosos por parte dos representantes da Igreja católica evidenciam fragilidades da organização.

O silêncio da Igreja em Portugal (como em Espanha) é estranho, intolerável e revoltante. Não se trata de querer restaurar uma caça às bruxas, mas de se fazer justiça às vítimas e de prevenir que mais crimes sexuais deste género aconteçam. A Igreja deve proteger os indefesos e a comunidade que serve, exercendo o dever de denúncia. Num estado democrático, separado da Igreja, todos os indivíduos são iguais perante a lei, padres ou não. Se um bispo tiver conhecimento de um padre pedófilo, deverá em primeiro lugar, defender os interesses da criança, da família e da comunidade, ainda que em prejuízo da instituição que integra, porque se trata de um crime público, fora da jurisdição da Igreja.

Este silêncio opaco, cúmplice e criminoso da Igreja é hipócrita, imoral e anticristão. Peca por omissão e por conivência. Não é tolerável! Não deverá a Igreja agir com verdade e pela verdade? Por que razão continuamos a ver a Igreja a enterrar a cabeça na areia como a avestruz? É evidente que são necessárias reformas. Padres pedófilos, não!

Se necessário for, antes a Igreja abra o sacerdócio às mulheres e permita o casamento clerical, como faz a Igreja Protestante… Já não faz sentido a discriminação de género e já se vê que o celibato e a castidade clerical não são respeitados…

Quanto à pedofilia no seio da Igreja ibérica, é altura de a admitir, de a tornar pública, de a investigar, de a julgar e de a punir severamente. Ninguém deve estar acima da lei. Chega de padres Fredericos a passear-se no calçadão, a mudar de paróquia e a ser nomeados Bispos! Chega de silêncio sobre os padres pedófilos de Lisboa que foram indicados por Catalina Pestana, por altura da Casa Pia…

Continua o silêncio impune, atroz, tenebroso e nojento. Até quando? O que a Igreja não pode sonegar, é que este silêncio fala mais que mil palavras, e estas são abjetas!

Continuo a pensar que a Igreja, enquanto instituição, é relevante e socialmente necessária, mas tem de expurgar esta mácula… Estes comportamentos são inaceitáveis numa instituição de bem e se não forem sanados levarão ao descrédito e à ruína da instituição milenar.

Haja coragem, humildade, justiça e, acima de tudo, mudança!

Texto de Margarida Rocha