Em 1916 havia cerca de 3,211 veículos automóveis em Portugal, o que situava o país a meio da escala europeia; nações como a Espanha, a Áustria-Hungria, a Rússia, a Roménia e a Grécia detinham menos viaturas do que a república portuguesa (Marques, 2010). Em 2019, 103 depois, Portugal contabilizava um total de 409,607 veículos (Pordata). Com o alvorecer da modernidade, o automóvel tornou-se indispensável no quotidiano dos portugueses. Durante o cavaquismo, esta ideia cristalizou-se: as novas veias de asfalto e o transporte rodoviário seriam a base do progresso nacional, regional e local; porém, tais desígnios não comtemplavam um desenvolvimento proporcional do transporte público. A ferrovia portuguesa, em particular, foi completamente descurada. Em 1988, núcleos urbanos como Viseu, Amarante, Estremoz, Vila Real, Chaves, Bragança, Sines e Santiago do Cacém detinham uma estação ferroviária; em 2021, tal já não é verdade. O nordeste do país, por exemplo, está completamente desprovido de qualquer via férrea funcional. A política do asfalto surgiu como um presente envenenado para muitas comunidades do nosso país; em muitos casos, tal significou a perda de serviços, de infraestruturas e de relevância demográfica. Por outras palavras, o fomento da rede rodoviária, sem um desenvolvimento integrado do transporte público, intensificou ainda mais a litoralização do país. O asfalto trouxe a proximidade, mas também o afastamento. Em Portugal, privilegiou-se o carro, acima de tudo.

Fora dos grandes núcleos urbanos o transporte público é manifestamente deficitário. Mesmo em certas áreas suburbanas das áreas metropolitanas do Porto e de Lisboa, a irregularidade do transporte público pode comprometer uma entrevista de emprego, uma consulta ou, no pior dos casos, um encontro amoroso. No interior, o automóvel é efetivamente uma necessidade. O acesso à saúde, aos correios, à junta de freguesia, à vila ou cidade mais próxima, depende, na maior parte dos casos, da força motriz do automóvel. Neste quadro, não é de admirar porque é que tantos portugueses necessitam do carro para sobreviver.  Se em 1916, o automóvel era um luxo ostentativo da burguesia urbana; hoje é um ativo imprescindível para muitas famílias portuguesas. Quando antigos luxos se tornam necessidades, é porque que o mundo mudou ou está a mudar. O parco investimento nos transportes públicos portugueses durante as últimas décadas, produziu um trânsito pantagruélico nas nossas cidades. Os portugueses, por força das circunstâncias, fizeram do estacionamento em segunda fila uma arte

O aumento do preço dos combustíveis, através dos impostos IVA e ISP, pelo governo costista, propiciou uma onda de indignação e debate dentro da sociedade portuguesa. A retórica deste aumento parece estar relacionada com a questão das alterações climáticas, mas todos sabemos que é manifestamente demagógico. Todavia, haverá um dia em que tal deixará de o ser. Aproximamo-nos, a paços largos, para um ponto sem retorno. Teremos, irremediavelmente, de mudar o nosso modus vivendi para garantir o futuro das gerações vindouras; o combate às alterações climáticas será, muito provavelmente, o maior desafio da humanidade. Mas como o faremos? As sociedades contemporâneas, pura e simplesmente não funcionam sem recorreram aos demais veículos motorizados. Se parássemos todos os veículos ao mesmo tempo, haveria uma fome generalizada, uma gravíssima crise de saúde pública e instalar-se-ia uma anarquia, onde o banditismo e barbárie fariam o seu insidioso papel. O nosso modo de vida deve-se, em grande medida, às virtudes dos combustíveis fósseis. Contudo, a bem da nossa sobrevivência, teremos de mudar. Como diz a jovem Greta Thunberg: “Não há planeta B”.

Porém, não se iluda, leitor. O combate às alterações climáticas vai doer. Vamos ter de viajar menos; mudar a nossa alimentação; comprar mais produtos locais; mudar a nossa lógica capitalista de caráter global; consumir mais produtos portugueses; reutilizar; cultivar legumes em casa; andar mais a pé; viajar mais de transportes públicos… toda uma panóplia de mudanças. Este ensaio da subida dos combustíveis é só o início. Contudo, já todos percebemos quem irá pagar a transição energética em Portugal: os pobres. Fazê-la, não onerando os mais frágeis da sociedade, será um desafio ainda maior, naquilo a que a banda portuguesa Diabo na Cruz apelidou de “vida de estrada”.