O Portugal do século XIX teve períodos muitos conturbados, principalmente a partir da propagação das ideias liberais, que puseram em causa toda a estrutura social existente no País.

Nesses tempos Portugal assistiu a uma Guerra Civil fratricida, que opôs os defensores das novas ideias, dos que defendiam os tradicionais sistemas de governação.

Uma, entre várias outras medidas, foi a confiscação dos bens da Igreja Católica, pelo Governo da época (1833), por proposta do ministro Joaquim António de Aguiar, que ficou conhecido por «mata-frades».

Depois dessa guerra, vieram várias revoltas contra os governos estabelecidos, como sejam as denominadas “Maria da Fonte” e a “Patuleia”, entre outras.

A ordem só começou a surgir, depois dos meados do século, que com a acalmia estabelecida, foi possível avançar com o progresso, fazendo-se grandes investimentos no desenvolvimento do País, de que ficou célebre o ministro Fontes Pereira de Melo, que o impulsionou, de um modo especial nas vias de comunicação.

Nesses conturbados tempos as forças militares, muitas das vezes, eram indisciplinadas e revoltadas, acabando por ter atitudes criminosas contra alguma da população portuguesa (que elas deviam proteger e não o contrário: atacá-las).

No dia 31 de Maio de 1847, uma dessas forças militares indisciplinadas, passou na freguesia de Canelas, deste concelho, e acabou por assassinar, a tiro, 4 homens que, aparentemente, nada fizeram para mereceram a morte.

Foram eles João Brás, Manuel da Costa, Manuel Soares e António Martins.

O conhecimento deste facto chegou até nós por o pároco daquela época, em Canelas, Manuel Mendes Ribeiro, ter o cuidado de o narrar ao lavrar os registos de óbito dessas pessoas:

«Aos trinta e hum dias do mez de Maio de mil oitoçentos quarenta e sete passando pela estrada publica da Recosteira desta frg.ª huã colluña de soldados de pé, e cavalaria, cujo comandante disem ser o Cazales, e dessendo parte destes ao lugar de Sima desta frg.ª mataraõ de repente com tiros a João Braz casado com Tharesa da Cruz da Casa do Jacinto, e a Manoel da Costa casado com Joaquina Maria da Casa do seu Pai Manoel da Costa, e de pois de outros mais estragos q fiseraõ hindo-se embora encontraraõ huns homens de rossa do pé dos Galinheiros do logar de Mialha, e investindo contra eles mataraõ a Manuel Soares solteiro filho de Anna Maria v.ª do logar de Mialha este tinha estado á pouco tempo doente, e p.r essa causa tinha então feito o seu testamento o qual estava fichado, e lacrado com trez pontos, e sem macula alguã, e nelle diz que deixa por sua Alma duzentas Missas resadas dentro em hum anno atendidas ao re.do Parocho p.ª diser as que quiser, e que ao m.mo se paguem as ofertas do custume, e q se lhe fizesse hum officio de corpo presente ou em o primeiro dia desimpe.do e q se desse aos pobres as esmolas do costume, e hum alqueire de milho a cada hum dos quatro que o reconduzirem à sepultura, e nada mais pertencente ao Pio. Mais mataraõ a Antonio Martins casado com Maria de Pinho assistentes nas Fontes do Gondim. Todas estas quatro inocentes victimas foraõ sepultadas no dia dous do m.mo mez dentro desta Igreja de Canelas»[1].

Foram cometidas muitas tropelias em todo o País, nesses tenebrosos tempos, de grande mudança na sociedade portuguesa.

Lembramos que foi nessa época (1846), que foi publicado o decreto-lei que proibia os enterramentos nas Igrejas, que muito “mexeu” com as populações, embora fosse uma medida de grande interesse para a sanidade pública.

Que tempos desses não venham mais!


[1] ADAVR – Regist. Paroq. freg. São Miguel de Canelas. Livro de Óbitos, n.º 14 (1803/1859), fls. 43 e 43v.

Por: Alberto de Pinho Gonçalves