O DD esteve no passado sábado, dia 23 de outubro, na aldeia de Saril, em casa de Ermelinda Marques, de 85 anos, para acompanhar a desfolhada mais antiga desse lugar e uma das mais antigas da Freguesia de Rossas. Desde que anfitriã se lembra esta atividade é realizada nesta altura do ano, o único fator que muda é que quando faz frio é realizada no interior da sua casa, na cave, que não foi o caso deste ano, visto que estava uma noite amena e apetecível para o trabalho manual, que requer o desfolhar. Estiveram no local mais de 20 pessoas.

A prática ancestral de semear milho é reproduzida por Ermelinda e pela sua filha Laurentina por forma a terem alguma rentabilidade com a criação de animais, visto que, dessa forma, já não necessitam de comprar rações. De referir ainda que Laurentina Cabral venceu este ano o 2º prémio da Melhor Broa caseira, promovido pela Câmara Municipal de Arouca.

Do que o DD apurou a desfolhada, nesta casa em Saril, é a única que se faz, atualmente, na zona de Provisende. “Antigamente eram realizadas muitas mais”, confessou Dona Ermelinda reiterando que a prática tem decaído ao longo dos anos. Atualmente, a maior parte das culturas de milho são para fazer silagem, ou forragem para os animais, este tipo de “desfolhada à moda antiga” estão a acabar, inclusive o número de lavradores está a diminuir, “Na aldeia de Saril haviam 18 lavradores e agora só existem 2”, informou Jorge Silva, agricultor que estava presente na desfolhada.

“No caso da dona Ermelinda, que tem dois campos grandes, com bastante produção, e como sozinha não consegue “dar vasão” a tudo durante a semana, vai recolhendo as espigas convidando depois várias pessoas para ajudarem a desfolhar.”, acrescentou.

Ermelinda Marques que viveu primeiramente em Póvoa Reguenga (Urrô), adiantou ao DD que grande parte dos terrenos agrícolas que possui, em Saril, foram comprados aos tios que, na década de 50, emigraram para o Brasil, deixando grande parte da riqueza em Portugal. Segundo a octogenária a melhor forma de tirar rentabilidade desses terrenos era cultivando-os, a maior parte com milho. No fundo a Dona Ermelinda acabou por dizer com um sorriso no rosto, “Eu gosto de viver aqui”.

 “Hoje em dia devido à nossa agricultura estar muito pouco apoiada o que resiste é um ou outro agricultor, mas já pouca gente quer cultivar, porque é um trabalho dispendioso e que não dá o rendimento que as pessoas desejam. Claro que não acaba de vez porque há sempre resistentes.”, reforçou Jorge Silva.

Ermelinda Marques, com um pouco de tristeza no seu semblante, ainda referiu que que as pessoas “mais novas” já não sabem nem querem trabalhar na agricultura porque ainda não têm necessidade, admitindo que, a seu ver, os dias de futura necessidade poderão não estar tão longínquos quanto a sociedade atual julga.  

“Se a Dona Ermelinda desistir, se eu desistir e toda a gente desistir acabamos por ter um dia que nos virar para a agricultura em grande escala, onde são utilizados herbicidas e pesticidas para retirar o máximo de rentabilidade, mas a qualidade nunca é igual. O nosso trabalho é terrível porque muitas vezes com as alterações climáticas e devido a não usarmos muitos químicos vemos o nosso trabalho a ir por água abaixo. Mas sabemos que os produtos de casa são muito melhores que os restantes. E isso faz tudo valer a pena”, concluiu Jorge Silva.

Texto: Ana Castro