Se deixássemos de lado os preconceitos, nomeadamente aqueles mais estruturais ou ideológicos, e nos envolvêssemos efetivamente na compreensão e resolução dos problemas que temos pela frente não seria mais fácil, ou talvez menos difícil, conseguir encontrar soluções que lhes dessem uma resposta mais sólida e eficaz?

Trago-vos para uma análise conjunta, uma vez mais, o tema da juventude porque acredito que quanto mais vezes o analisarmos, discutirmos e lhe dermos o devido destaque, mais perto poderemos estar de uma mudança de paradigma que se foque no que verdadeiramente importa: não deixar para amanhã a adoção e concretização de medidas em prol dos jovens que são jovens já hoje.

Existe já um conjunto de literatura e legislação a nível local, nacional, europeu e mundial na área da infância e da juventude que se tem revelado numa importante ferramenta para conhecer, regulamentar e potenciar a implementação de medidas e ações concretas que conduzam a uma efetiva garantia de acesso e fruição dos direitos dos jovens, com a consequente melhoria das suas condições de vida, tendo por base, nomeadamente, os domínios da saúde, educação, emprego, habitação, cultura ou ambiente. 

Em Portugal, o artigo 70.º da Constituição Portuguesa é um dos claros indicadores da importância que o legislador atribui a esta faixa da população, procurando assegurar a existência e a efetivação de condições de acesso aos direitos dos jovens nas mais diversas áreas que lhes dizem respeito, emanando diretrizes e linhas estratégicas orientadoras que permitam a construção de respostas que potenciem uma emancipação condigna das jovens gerações.

Constatamos, assim, que a lei portuguesa é capaz de tecer orientações estratégicas de intervenção para aquelas que devem ser as políticas de juventude nacionais, com o intuito de promover e potenciar a efetiva participação de jovens na dinâmica comunitária, focando-se no seu envolvimento direto no desenho, execução e avaliação de politicas que incidam direta e indiretamente nas suas vidas, materializando um facto inegável: a transversalidade das políticas de juventude. Uma transversalidade que demonstra que a juventude está presente, influencia e é influenciada por todas as áreas da governação, e que deve assentar em processos de diálogo estruturado e permanente, fomentando o interesse pelas questões da cidadania, com a finalidade de contribuir para uma melhor e maior integração social.

Existindo já legislação, eis que é chegada a hora de uma aposta na solidariedade intergeracional que olhe para os jovens como presente e futuro, envolvendo-os, claramente, nos processos, áreas e estratégias que eles irão “herdar”, garantindo que têm uma palavra a dizer na forma como os assuntos políticos, sociais, ambientais, educativos, da saúde ou financeiros são geridos. Se os jovens de hoje serão os adultos de amanhã, porque não serem envolvidos, desde já, nas diversas questões que terão de enfrentar e gerir? Queremos uma juventude dinâmica, participativa, competente, bem-sucedida, etc., etc., etc., então porque não agirmos, a título individual e coletivo, como parte ativa desse processo?

É necessário apostar na consciencialização da sociedade e dos poderes políticos e económicos para que estes possam apostar e incentivar à participação e envolvimento dos jovens, ligando-se aos valores da democracia, da cidadania, da cooperação e da solidariedade, construindo respostas inovadoras para combater as injustiças e a desigualdades, contribuindo com medidas claras que contribuam para a sua emancipação e autonomização.

E se fizéssemos do diálogo intergeracional um catalisador para uma sociedade mais ativa, inclusiva e geradora de oportunidades, onde os jovens assumissem um papel relevante na promoção, consolidação e desenvolvimento das sociedades? E se permitíssemos que os jovens assumissem a sua quota parte de responsabilidade na vida que estão a viver?

E se o fizéssemos já hoje?

Cátia Camisão