O passado domingo foi dia de festa rija para muitos, de uma certa amargura para outros como também de indiferença para quase a maioria. Em muitos municípios houve surpresa, noutros nem por isso. Seria curioso saber quais foram as motivações para a mudança ou para a continuidade, onde, ao longo de quatro anos, pouco ou nada se fez.

Estou convencido que os que optaram pela mudança, muito provavelmente, terão dado primazia à razão sobre as emoções. Os da continuidade terão dado prevalência às emoções sobre a razão. Como se processa? Simples: um determinado candidato ou candidatura tenta fidelizar o maior número possível de pessoas a si ou ao seu projeto. Quando isso acontece, os eleitores toleram-lhe a incompetência ou até algumas situações duvidosas. Há exemplo de autarcas que tiveram problemas com a justiça e foram a votos, tendo sido eleitos, novamente, com uma larga maioria.

Como se consegue criar essa ligação efetiva e duradoura? É através do marketing político. O marketing está hoje ao serviço de inúmeras áreas da atividade humana e, como não poderia deixar de ser, também da atividade política, assumindo maior preponderância em períodos eleitorais. Atualmente apresenta um nível de sofisticação muito elevado, dispondo de uma panóplia de ferramentas técnicas, que permitem gerir uma candidatura com o mesmo rigor de planeamento e concretização com que se gerem grandes marcas de consumo. Os modelos de marketing político e eleitoral são utilizados, principalmente, nos planos de comunicação e projeção de imagem dos candidatos nas campanhas, com bons resultados de eficácia na promoção do valor simbólico da marca dos protagonistas.

A política não é um bem ou serviço de consumo ou um produto. O seu campo é o debate de ideias, de conceções de vida em sociedade e do seu governo. Quer dizer, é território da razão, da argumentação lógica com base em convicções ou em factos. No entanto, tem-se verificado que, desde o início da promoção de um candidato e principalmente em períodos eleitorais, os eleitores são mais permeáveis às emoções em detrimento da razão. Em período eleitoral são poucos os que usam a razão. Pretende-se que haja irracionalidade.

A linguagem que toca as emoções, os sentimentos, é uma poderosa técnica que facilita a construção de um discurso que apaixona, fascina, emociona, ou atormente, levando os eleitores a aderir às propostas em função das emoções nelas despertadas e a uma cumplicidade com um candidato, podendo evoluir para uma fidelidade perdurável.

Só assim se compreendem os resultados eleitorais autárquicos em Vale de Cambra. O atual presidente da câmara teve o mérito, há mais de oito anos para cá, de aproveitar as potencialidades do marketing político para fidelizar a si uma larga maioria de valecambrense que o continuam a eleger, apesar de não ter qualquer projeto e visão de futuro para a sua terra.

O grande derrotado foi o PSD de Vale de Cambra, que corre um sério risco de desaparecer a nível autárquico, quando já teve um papel determinante no desenvolvimento do concelho. A comissão política teve cerca de quatro anos para unir o partido e construir um projeto vencedor. Por isso, deve uma justificação às bases locais do partido por tremenda derrota!

Carlos Matos