“O grande problema aqui em Arouca como a nível nacional é a falta de compromisso”.

Apesar de não ter nascido em terras de Santa Mafalda, Arouca está em si quase tanto quanto a ciência. Manuel Sobrinho Simões já foi considerado o patologista mais influente do Mundo. Abriu portas na investigação do cancro, e fundou uma instituição de referência, o Ipatimup (Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto), sendo ainda o seu diretor. Professor e formador serve a medicina ensinando em muitos cantos do mundo.

Consigo transporta sucessivas gerações de médicos. Consigo transporta “os genes de Arouca”. A terra do seu pai é referenciada a propósito (e com propriedade), seja numa conferência ou entrevista, como a que aconteceu recentemente no programa da RTP, Primeira Pessoa, gravada precisamente na Vila, na casa dos seus ancestrais. Foi também bem perto do Convento e da Praça Brandão de Vasconcelos, que tanto gosta, que conversamos sobre uma terra de afetos que em muito contribuiu para o seu ser. 

“Criei afeto por aqui e pelas gentes daqui”.

Discurso Directo (DD)- O porquê do amor que sente por Arouca e que publicita em inúmeras entrevistas que concede?

Manuel Sobrinho Simões (MSS) – Eu sou o único rapaz de quatro, ou seja, era um rapaz e três raparigas e o meu pai era o Manuel Simões de Arouca, o meu avô Manuel Simões de Arouca, assim como o meu bisavô e toda a minha juventude foi com os meus amigos de Arouca, portanto vinha para Arouca nas férias, ou seja, ficava cá três meses ou quatro meses no Verão e três semanas na Páscoa mais três semanas no Natal…estava sempre em Arouca. Tudo isto muito precocemente. Tinha grandes amigos, aliás o meu grande amigo era da Lavandeira o Alberto Brito, pois eu vivia à frente da casa dele. Agora ele é o padre Alberto Brito que continuou a ser sempre o meu grande amigo, que conheço desde os 3 anos. E isto marca, criei afeto por aqui e pelas gentes daqui.

O meu avô tinha a mania das coisas do museu e da arqueologia e isso também me transmitiu a importância de Arouca. Ele também andou metido naquela história do Merujal, ele conseguiu levá-los lá (o júri da aldeia típica), no entanto, acabou por ganhar Monsanto, mas ele conseguiu levá-los ao Merujal, apesar de não existir estrada. O meu avô foi com o Garret, que era professor de direito, que organizava o concurso nacional. Quando o meu avô propôs o Merujal para a aldeia mais típica o júri não queria porque não havia estrada para lá, só que ele arranjou burros e levou-os de burro. Portanto, eu era o único rapaz que adorava estar cá pelo lado afetivo, estava a vir pela rua Alexandre Herculano, há bocado, e lembrei-me do Armandinho do café, e dos «Alexandres» da Pensão Alexandre. Quando vinha comer alguma refeição vinha à pensão Alexandre, também havia a Ferreira Pinto. No entanto, eram todos meus amigos. O Alberto Brito meu grande amigo também foi muito importante aqui em Arouca, porque ele era o provincial dos Jesuítas, ele é que quis sair passados alguns anos, e lá está era de Arouca, tem de referir isso. O meu avô falava sempre de Arouca, e como ele não tinha carro quando eu o acompanhava a casa dos doentes, íamos de táxi com o chauffeur e o meu avô à frente e eu atrás. A minha vida aqui foi assim, e eu fiquei muito marcado na parte sentimental.

DD – Sempre teve orgulho em dizer que era Arouquense? …tenho a impressão que houve uma altura em que havia um certo receio em se dizer que se era de Arouca face à interioridade?

MSS – Não creio, totalmente. Pode ter existido uma altura que sim, no entanto, agora não encontro essa tendência. Trabalharam comigo no I3S e em mais locais, pessoas que estão agora espalhadas pelo mundo inteiro e que são de Arouca e que fazem gosto nisso e de o dizer. Não se esqueça que quando eu fui com o presidente a S. Paulo e ao Rio vieram ter comigo um número enorme de pessoas que também tinham a minha profissão. Tanto no Rio como em S. Paulo diziam “eu sou filho de tal…de Arouca” eu achava muita graça.

A meu ver o mosteiro proporcionou a educação de pessoas de classes mais baixas (talvez seja por isso que existem tão bons profissionais, das mais variadas áreas, de Arouca). Houve aqui um ambiente muito particular porque as gentes daqui nunca foram nem Miguelistas nem Liberais, Arouca dependia da abadessa e estas pessoas tinham terras importantes, e havendo aqui uma grande pretensão para as gentes quererem saber mais (são e eram mais curiosas), a que se alia o sentimento de pertença\identidade Arouquense.

DD – Acredita que essa identidade tem esse fundamento? E que ainda hoje existe?

MSS – Eu não sei se é só isso mas penso que esse fator seja importante. Arouca tem muito o sentimento de pertença.

DD – Considera que os Arouquenses são um bocadinho conservadores?

MSS – Estamos a generalizar, mas eu era muito amigo do Bispo António Francisco e ele é de Tendais e ele nunca disse que era de Cinfães, quando ele queria explicar às pessoas de onde era dizia sou dali de perto de Arouca. Ele era um homem extraordinário.

“A pandemia só veio acelerar a «pouca-vergonha» com que se vive nas áreas urbanas”

DD – Muito por causa da pandemia, de como viver com esta e a tentar ultrapassar, surgiu um certo debate entre o rural e o urbano. Na sua opinião quem vive no mundo rural esteve (ou está) em melhores condições para ultrapassar, por exemplo, as quarentenas e os confinamentos?  

MSS – Eu continuei sempre a ir trabalhar, aliás fui dos poucos que continuei a ir para o hospital de S. João de manhã e à tarde para o Instituto. Eu quis continuar, porque não queria ficar sem fazer a minha atividade, e o resto da semana ia para Âncora. A pandemia só veio acelerar a “pouca vergonha” com que se vive nas áreas urbanas, hoje em dia, com excesso de carros, poucas opções de habitação e a precariedade dos trabalhos que existem. O urbano hoje não tem graça nenhuma, porque todos usam carros, estão sempre parados no trânsito, as pessoas que viviam nos centros urbanos foram desalojadas, para darem lugar ao alojamento local, e as pessoas foram para o suburbano o que dificultou o trânsito no Porto, em Coimbra etc.

A verdade é que as sociedades foram organizadas a partir do trabalho, e essa é a minha grande dúvida, como é que vai ser o trabalho no futuro? É a coisa mais determinante e que está a mudar, até a família tradicional está a mudar com os divórcios, etc. Neste momento falta trabalho em abundância para que as pessoas sejam recompensadas por ele. As profissões clássicas o calceteiro, o canalizador estão em extinção e é dramático pois são profissões fundamentais que não há quem pratique. Nós temos ótimos profissionais de enfermagem e medicina, e estamos a rebentar também com essas profissões, porque não as recompensamos o suficiente. É tudo precário. Portugal é tão pequenino e periférico que as chatices que teremos vão ser transversais. Para mim a divisão entre rural e o urbano está esbatida e só é realçada pelos políticos.

Arouca e a cultura individualista.

DD – Tem acompanhado, com certeza, o desenvolvimento de Arouca. Que opinião crítica tem?

MSS – Somos uma das grandes histórias de sucesso a muitos níveis. Para mim Arouca não tem uma organização do território, nós não resolvemos um problema que é ter de 7 em 7 anos ou de 8 em 8 incêndios. Outro aspeto que eu acho que também não estamos a resolver é a água, porque não há uma maneira de reter a água na serra, e quando começar a chover fortemente a água virá por aí abaixo e irá dar problemas, não no rio Paiva, mas sim no Arda.

Temos demasiadas associações que não colaboram umas com as outras. Ou seja, existe capacidade, existe massa crítica mas estas não colaboram umas com as outras, acho que somos minifundiários. Quando fizemos o Círculo Cultura e Democracia nós prometemos juntar e não conseguimos que as pessoas dessas associações lá estivessem. Isso pode ter a ver com o individualismo. Sou muito amigo do Manuel Brandão Alves. O José Sousa, que foi o primeiro presidente da Câmara de Arouca, depois da Revolução Liberal, é o meu tetravô e é o trisavô do Manuel Brandão Alves (risos). Nós temos de fazer uma melhor gestão dos baldios e fazer um melhor aproveitamento pois não podemos continuar assim por causa dos incêndios.

 Ou seja, esse é o primeiro problema, gestão das florestas, para preservar a água e prevenir os incêndios. O segundo problema são as organizações, que são boas e têm qualidade individual mas que não colaboram e que a meu ver têm de colaborar e se juntar.

A seleção da pessoa animal e tribal tem muito mais sucesso do que a pessoa altruísta e “boazinha”.

O terceiro problema é potenciar o aspeto cognitivo, ou seja, assim como nos fizemos muito bem com os passadiços e a ponte pedonal podíamos realizar o mesmo mas com outro tipo de desenvolvimento e abordagem que não fosse apenas turística. Portanto, devíamos ter mais turismo científico, mais turismo para estudar os pássaros e as plantas (por exemplo), no fundo enriquecer o conhecimento. Arouca precisava de ter mais conhecimento que, desenganem-se, não é o mesmo que informação!

DD – Aí coloca-se um desafio sobre a modernidade e a não modernidade, ou se quisermos sobre a memória e aquilo que não pode ser mexido?

MSS – O grande problema aqui em Arouca, como a nível nacional é a falta de compromisso, coisa que há muito nos países «civilizados». Aí encontraram compromissos pois nem tudo é branco e preto alguns assuntos são de um cinzento mais escuro e de um cinzento mais claro e há que fazer adaptações. Uma pessoa inteligente vai saber negociar. Tem de existir compromisso entre as instituições, como por exemplo, entre a escola e os museus e|ou organizações, para que os alunos não aprendam só na escola, mas também nesses locais.

DD O que é que o professor gosta mais de fazer em Arouca?

MSS – Ler, eu quando era mais novo sofria das ancas e agora ainda sofro. Por isso prefiro estar sentado ao sol a ler.

DD É importante para si manter as amizades e a ligação às pessoas de Arouca?

MSS – Sim, é muito uma relação de confiança que vem da infância e da juventude, e a segurança que tinha neste meio. Digo sempre bom dia e boa tarde quando estou em Arouca. O que me irrita no S. João é que é quase preciso gritar para alguém me salvar. É uma questão civilizacional. Os miúdos são muito individualistas, hoje em dia, e não se importam com os outros. Existe o culto do ecrã, que leva à solidão que é o maior problema desta geração.

A importância da religião e da seriedade.

DD – Sei que gosta muito das manifestações religiosas de Arouca…

MSS – …Há muitos anos saiu no jornal Público uma foto nossa (minha e de outras personalidades de Arouca), da procissão dos fogaréus, quando os participantes a realizavam de socos. Foi algo marcante para mim.

DD – Existe uma qualidade típica dos Arouquenses que vejo muitas vezes referenciada pelas gentes dos concelhos vizinhos: a seriedade. Concorda?

MSS – É verdade, isto era e é muito afastado de tudo. Aliás deviam existir mais estudos sociológicos em Arouca coisa que não existe. Às autarquias interessa-lhes muito mais aspetos físicos, e não os retratos sociais e as pessoas. Tal é de lamentar porque existem aqui muitas manifestações particulares ao longo dos tempos. A endogamia é algo a estudar também, ou seja, os casamentos processavam-se muito entre primos, grande parte deles.

“Uma trilobite, uma pedra parideira ou a Senhora da Mó”.

DD – Se tivesse que escolher um símbolo de Arouca por qual optaria?

MSS – Essa é uma pergunta muito importante. Porque hoje em dia estamos no tempo dos logos. Eu por exemplo não tenho telemóvel. Eu nunca colocaria o Mosteiro, estou em dúvida entre uma trilobite, uma pedra parideira ou a Senhora da Mó. E nunca colocaria a Mizarela. Diria que esses três: a trilobite, uma pedra parideira e o Monte da Senhora da Mó.

DD – E um local que lhe agrade em Arouca?

MSS – Em minha casa no jardim a ler e a olhar para a senhora da Mó.

Entrevista de: Óscar Pinho Brandão