FACTOS DO PASSADO Por : Alberto de Pinho Gonçalves

Era segunda-feira, 6 de Dezembro de 1937, quando uma brigada da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes, escoltada por a GNR, irrompeu no concelho de Arouca para cortar as chamadas videiras “americanas”.

Vinham em cumprimento do Decreto-lei n.º 27:775, de 24 de Junho de 1937, que dizia: «era obrigatória a enxertia dos produtores directos, a sua substituição ou arrancamento até 15 de Maio de 1937». O mesmo Decreto diz que: «Atendem-se alguns pedidos feitos, como o de exceptuar as parreiras que servem de cobertura dos engenhos de tirar água e dos pátios ou que se mantêm simplesmente como parreiras ornamentais». Mas «Não se permite a reserva de certa quantidade para consumo dos casais agrícolas porque isso daria lugar à inevitável propagação de bacêlos e obrigaria dentro de alguns anos ao sacrifício de muitos por se ter agora transigido com alguns».

Por serem vides que não precisavam de tratamento, tinha anos de produção abundante, e faziam um vinho “morangueiro” muito saboroso.

Estas vides foram introduzidas em Portugal no século XIX, vindas da América, para serem plantadas, principalmente no Douro, porque eram resistentes à filoxera, para depois serem enxertadas com as castas nacionais.

Mas foram-se disseminando um pouco por todo o lado, em prejuízo das nacionais.

Como os lavradores não quiseram cumprir as determinações do Governo, para serem enxertadas, cortadas ou arrancadas, não acatando a ordem dos vários decretos que foram sendo publicados em Diário do Governo, vieram os fiscais da C.V.R.V.V., acompanhados de forças da GNR para, à força se fosse preciso, fazerem cumprir a lei.

Começaram no lugar da Malhadoura, na freguesia de Santa Eulália, tendo a população feito oposição ao corte, havendo confrontos com a GNR.

Os populares foram convocados pelo repicar dos sinos das igrejas e a sirene de uma serração.

Dali a população dirigiu-se para a Vila, onde se juntaram lavradores também da freguesia de Moldes, entre outros, e aí as coisas complicaram-se mais. Houve confrontos.

Desses confrontos houve vários feridos de parte a parte, sendo socorridos no hospital da Misericórdia. Um dos feridos – Adriano Teixeira, do lugar do Matinho, Santa Eulália – foi encaminhado para um hospital, da cidade do Porto, onde veio a falecer a 1 de Fevereiro do ano seguinte, devido aos ferimentos recebidos. Era uma pessoa relativamente jovem, ainda não tinha completado 35 anos de idade, e deixava na orfandade três crianças de tenra idade…

A censura à imprensa era muito rigorosa, mas no entanto, o único jornal local ainda consegue dar a notícia, nestes termos: «Na Casa de Saúde de Santa Catarina, da cidade do Porto, onde se encontrava em tratamento, faleceu no dia 1 do corrente o Sr. Adriano Teixeira, viúvo, da Boavista, freguesia de Santa Eulália, Arouca.

O extinto, cujo cadáver foi trasladado para o cemitério da referida freguesia, sucumbiu em consequência dos graves ferimentos recebidos por ocasião do motim ocorrido há semanas e a que oportunamente nos referimos.

Deixa na orfandade três crianças de tenra idade.»[1]

Esta situação aconteceu um pouco em várias localidades do País, resultando dos confrontos, mortos e feridos.

Bem próximo de nós, na freguesia de Válega, do concelho de Ovar, foram mortos Jaime da Costa, de 18 anos, e Manuel Maria Valente de Pinho, de 38 anos, a 15 de Maio de 1939. Nos dias seguintes foram presas várias pessoas[2].

Devido aos contínuos confrontos, o regime do Estado Novo, acabou por desistir do corte ou arranque das vides, limitando-se só a proibir o comércio do seu vinho, multando quem fosse apanhado a transitar com o “morangueiro”…

A lei, que saibamos, nunca foi revogada.

“Mudam-se os tempos e mudam-se as vontades”. Hoje não é preciso obrigar o seu corte ou arranque, pois em Arouca até as vides nacionais foram cortadas, em grande parte, pois não compensa o seu fabrico em minifúndio, face às grandes explorações agrícolas. Restam alguns resistentes…

Todo este “barulho” ficou na memória dos arouquenses que viveram naquela época.

Logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, organizou-se em Arouca, uma associação de âmbito político, denominada “Associação Cultural e Recreativa de Arouca – A.C.R.A.”, que ocupou o 1.º andar do edifício da cadeia, para sua sede, em Julho de 1974, onde tinha funcionado a ex-Legião Portuguesa e, entre outras coisas, começou por editar um pequeno boletim – O 6 de Dezembro – de que foram editados apenas três números, sendo o terceiro policopiado, tendo este título em homenagem aos agricultores que viveram este triste episódio.

Teve pouca duração a dita Associação pois, pelo seu cariz político e de extrema-esquerda foi, a 10 de Julho de 1975, desalojada da sua sede, por decisão da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Arouca[3].


[1] Jornal Defesa de Arouca, n.º 630, de 5-2-1938.

[2] Sara Dias de Oliveira – Jornal “Público”, de 15 de Maio de 2009.

[3] Jornal Defesa de Arouca, 2.ª série, n.º 1022, de 19-7-1975.