Subitamente, o Afeganistão ganhou um lugar no nosso coração. A burguesia progressista, deitada nas suas rugosas toalhas de praia, publicou uma ou outra imagem chocante da miserável situação afegã nas demais redes sociais. Os retratos do desespero do povo afegão entrepunham-se na veloz sucessão de fotos veranis, numa bizarra mistura entre a superficialidade do kitsch contemporâneo e a miséria da condição humana nesta parte menos esclarecida do planeta. Mais uma vez percebemos que a nossa consciência social e humanitária não é regular: anda a reboque do mediatismo, do simbolismo e das imagens chocantes que volta e meia inquinam os nossos ecrãs. Criou-se um pathos artificial que responde às necessidades emotivas do presente. A sociedade urge em provar que se apoquenta com a barbárie: bem sabemos que, em boa verdade, o que lhe preocupa é mostrar que se preocupa. Simulamos, perante nós e os outros, que a nossa comiseração atravessa o distante Bósforo.

Nas últimas semanas, os especialistas da COVID-19 tornaram-se rapidamente especialistas da questão afegã: há agora todo um leque de sábios que vocifera coisas sobre este montanhoso e complexo país. Os séculos XVIII, XIX e XX produziram intelectuais; o século XXI produz pessoas com opiniões sobre os mais variados temas do mundo físico e metafísico. Os sábios do nosso tempo reciclam acriticamente as correntes de pensamento da indústria do comentário português, demonstrando uma total incapacidade de pensarem por si próprios ou simplesmente demonstrarem alguma originalidade argumentativa. O conhecimento enciclopédico deu lugar ao conhecimento wikipédico: frases feitas, citações de origem duvidosa e neologismos anglicizados retirados do contexto norte-americano, coloram a retórica destes novos vultos. Este novo escol intelectual ganha legitimidade com os sucessivos convites por parte da comunicação social tradicional, saltando do digital para os holofotes da televisão nacional. Como podemos entender o que se passa no Afeganistão sem estas sábias vozes?

Resta-nos constatar o falhanço monumental da presença dos Estados Unidos da América e os seus aliados no Afeganistão, durante as duas últimas décadas: o conflito mais longo da história dos Estados Unidos, que supera mesmo a sanguinária e absurda guerra do Vietname (1955-1975) por uns escassos cinco meses. Após o fatídico ataque do 11 de setembro de 2001, a administração Bush decidiu invadir este país para primordialmente aniquilar a Al-Qaeda e Osama Bin Laden, porém um projeto democrático para o Afeganistão começou a ganhar forma: George W. Bush chegou mesmo a declarar que “expulsar os talibãs era importante, mas construir uma escola era igualmente importante”. Por conseguinte, os americanos promoveram um estado-nação de tipo ocidental num país com raízes tribais, numa tentativa de impedir que o Afeganistão se transformasse num viveiro de terroristas. Porém, tudo parece ter falhado. Os americanos impuseram a democracia com o seu poder de fogo, criando ao mesmo tempo alianças com sátrapas locais ou mesmo com cabecilhas de cartéis de droga de importância regional: um projeto sincrético, sem uma estratégia viável e sustentável a longo prazo. Para os afegãos, a democracia cheira a pólvora: 71.000 civis afegãos e paquistaneses foram mortos por drones ou por bombardeamentos aéreos.

Vinte anos depois, os Estados Unidos contabilizam um total de 73.954 mortes entre soldados (americanos, europeus e afegãos), trabalhadores contratados, polícias, voluntários e jornalistas (Associated Press). Foram igualmente gastos triliões de dólares neste conflito, cujos juros se sentirão no erário americano durante várias décadas. Como se não bastasse, o exército do estado afegão praticamente não resistiu ao avanço dos talibãs, depois de anos de investimento em meios e recursos humanos por parte dos americanos. Por fim, as mulheres afegãs – que obtiveram um vislumbre de uma vida melhor – veem-se agora entregues aos talibãs, cuja interpretação do Corão é inexoravelmente fanática, para não dizer medieval: a mulher afegã não terá espaço neste novo regime teocrático.

Em 2001, Milton Bearden, ex-oficial da CIA, apelidou o Afeganistão de “cemitério de impérios”, numa alusão às falhadas tentativas de domínio por parte dos gregos, dos persas, dos mongóis, dos britânicos e dos soviéticos. Historicamente pouco precisa, esta afirmação faz-nos cogitar sobre a ingovernabilidade desta região. Contudo, independentemente da leitura histórica de Bearden, o que é certo é que o “cemitério de impérios” foi, nestes últimos vinte anos, “um cemitério de afegãos”.