A pandemia impediu-me de visitar um maravilhoso pedaço de terra: Arouca. Porém, voltei. Abandonei a floresta de betão dos arredores portuenses, para visitar uma terra que aprendi lentamente a amar. Quando era miúdo não gostava de ir a Arouca. Fazia cara feia, enervava o meu pai e ficava sempre enjoado com as curvas e contracurvas das sinuosas estradas arouquesas. Sentia que me roubavam tempo precioso, que muito provavelmente dedicaria a jogar playstation. Era um idiota. Contudo, com o tempo percebi que há poucos lugares como a mirífica Arouca. A verdade é que somente um sítio como este me faz brincar ao Miguel Torga.

A paisagem possui de facto uma mística singular, especialmente no outono. A bruma que orbita as encostas montanhosas, que cercam os profundos vales arouquenses, preencheu sempre o meu imaginário nos dias outonais. A folhagem de cores quentes; as gotas de chuva a cair dos ouriços dos castanheiros; o som do vento a pentear as árvores; a água das chuvas a escorrer pelas valas que ladeiam as estradas descendentes; o cheiro da madeira queimada na lareira da casa dos meus avós; coloriram sempre o meu arquétipo de uma Arouca outonal. Arouca é mais bonita no outono, a meu ver. Mas há mais. As igrejas graníticas, as aldeias de xisto e o casario polvilhado nas encostas dos vales dão uma carga histórica única à região. Ao percorrer as estradas que serpenteiam os vales arouquenses, vejo que a há quadros que não se pintam.

Os arouquenses são extraordinários. São afáveis, fortes, genuinamente hospitaleiros, ternurentos e são permeáveis ao humor e à boa disposição. Conservam as virtudes serranas, são cosmopolitas e ocupam lugares de destaque no escol das grandes metrópoles. Por vezes são irredutivelmente niilistas perante a beleza consumada, porque sabem que há poucos lugares tão bonitos como a sua terra natal. Ao longo da história contemporânea, milhares de arouquenses migraram em busca de uma vida melhor, fosse nas duas maiores cidades portuguesas, fosse no centro do continente europeu. Entregaram a sua juventude às rodas dentadas e aos desafios da urbe, nunca esquecendo, porém, a beleza dos seus íngremes vales, das suas serras pintadas de tons arroxeados e amarelados, pela urze e pela carqueja, e da melancolia do som da corrente dos seus pequenos rios. A cidade suga os melhores talentos desta terra, o que me faz pensar na seguinte questão: o que seria o Porto ou Paris ou outra grande cidade sem os arouquenses e a sua descendência que por aí vai ficando? A força humana dos arouquenses é indelével em qualquer lado. Sempre ouvi dizer que a mão invisível dos arouquenses está por todo o lado, e muito provavelmente está.

Texto de Miguel Brandão

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