Em tempo de eleições autárquicas há uma frase que sempre aparece – o que interessa não é o partido mas a pessoa. Uma frase que merece ser contraposta com a quixotesca defesa da Ideia em detrimento da pessoa. Não porque as pessoas não sejam importantes, claro que são, as ideias não existem sem pessoas, mas porque, em política, é a ideia que que agrega, que faz proposta.

Se o custo da água é elevado e o serviço de fornecimento mau, não será pelo nome de quem preside a autarquia que haverá diferença. Diferença haverá se a água (e o seu fornecimento) for tratada como um direito dos arouquenses e não como um negócio ou como um serviço gerido como um negócio. Lá está, são ideias o que, primeiramente, importa.  

Sobre o primado da pessoa sobre a ideia um exemplo a considerar é o dos trânsfugas. Mudar de opinião ao longo da vida não tem problema algum, mas tantas vezes, convenhamos. Onde ficam as convicções? De um concelho aqui perto vem o percurso, com uns temperos mais, que a seguir se regista. Sinal de uma certa evolução no poder local democrático, de decadência das Ideias, da Política, mais um sintoma do individualismo.

Estavam os anos oitenta a fechar e o Calisto Elói, que não era o morgado da família nem Barbuda de apelido, inscreveu-se no CDS, o partido da terra e das tradições. E, ancorado na memória dos antepassados, assim dizia, fez-se autarca pelo CDS.

A meio dos noventa, já com os fundos da CEE a todo o vapor, com carro novo e as primeiras tecnologias portáteis, zangou-se com o CDS e mudou-se para o PSD, já sem passar pelo PPD. Falava da terra e das tradições mas, agora, com incremento tecnológico. Tinha-se modernizado, afirmava.

Virados o século e o milénio, com as novas oportunidades o nosso Calisto Elói virou também, neste caso Doutor e candidato pelo PS. Já não falava da terra e das tradições, mas de território, portfólios e e-economia. Estava mesmo moderno.

Na segunda década do milénio chateou-se com os pares e criou um movimento apolítico, de ideias frescas e instantâneas, ao qual chamou Movimento Independente da Terra. E, com base numas ideias próprias e, segundo dizia, inovadoras, assim se manteve autarca. Estava mesmo, mas mesmo, moderno.

Agora, nos anos vinte do novo século, um delfim ultrapassou-o, percebeu quem era (m) o (s) poder (es) de facto e congeminado com alguns dos potentados locais fez a folha ao dinossauro. Calisto Elói não desistiu da sua demanda e foi além do discurso do mesmo, mas mesmo, moderno. Virou hodierno, rompeu com o decrépito Movimento Independente da Terra e criou o Verdadeiro Movimento Independente da Terra.

Perguntou-lhe o Joaquim Inácio, consagrado jornalista da rádio local: como explica o seu percurso de mais de 30 anos (CDS – PSD – PS – MIT – VERDADEIRO MIT)? Respondeu o Calisto Elói: As pessoas conhecem-me, o meu percurso foi norteado pelo meu valor e pelas minhas ideias, afinal eu não sou político, sou alguém verdadeiramente independente!

Mais uma pessoa distinta do Pessoa – tenho o meu mundo dentro de mim! 

Texto: Francisco Gonçalves