Para compreender o que é a direita portuguesa em 2021 basta ouvir as demais intervenções da terceira convenção do MEL – Movimento Europa e Liberdade -, ocorrida no início deste mês (junho de 2021). O MEL conseguiu congregar um cocktail direitista heterogéneo, que reuniu centristas, passistas, democratas cristãos, libertários, neossalazaristas, neoconservadores, neoliberais, políticos de extrema-direita, e até um deputado do PS. Foram dois dias de catarse coletiva, onde a direita portuguesa pôde tocar nos seus temas preferidos: o decadentismo económico português, o peso do estado, o estatismo socialista, a ineficiência dos serviços públicos, a morosa burocracia lusitana, a conquista do centro político, a ditadura do politicamente correto, os impostos, a liberdade económica e “o futuro”. Para o efeito, a crème de la crème da “direita viva” portuguesa foi convocada para teorizar sobre a corrosão nacional, que, no seu olhar, foi agravada pela acidez das políticas de esquerda nas últimas duas décadas. O objetivo dos organizadores desta convenção é muito simples: propiciar a união de todas as direitas, contra um inimigo comum – o bloco político e social da célebre geringonça.

A direita portuguesa, em vários momentos da história contemporânea nacional, uniu-se para, na sua aceção ontológica, “pôr ordem no país”. Foi assim com a construção do Estado Novo, nos finais dos anos 20 e inícios dos anos 30; com a Aliança Democrática de Sá-Carneiro, Freitas do Amaral e Ribeiro Teles em 1979-1980; e mais recentemente com os XIX e XX governos constitucionais de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas. De certo modo, as eleições presidenciais de Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa também confirmam esta convergência à direita. Se Salazar “salvou” o país da instável Primeira República Portuguesa; se a AD ofereceu uma alternativa à política errática de Soares; se Passos “resgatou” Portugal da bancarrota; quem salvará o país do longo consulado costista, num país cada vez mais pobre e periférico? É precisamente este o pensamento de boa parte da intelligentzia da direita portuguesa, hodiernamente – é preciso salvar Portugal das amarras vermelhas.

O MEL montou uma boa equipa. Maria Fátima Bonifácio, inspirada no decadentismo literário da Geração de 70, fez uma radiografia da história de Portugal, louvando a génese guerreira da civilização cristã e a glorioso século quinhentista português. Nada melhor do que acabar a sua intervenção com uma alusão à salvífica figura do professor Oliveira, “o mago das finanças”. Jaime Nogueira Pinto, José Miguel Júdice, Luís Amado, Luís Mira Amaral e Rui Ramos ornamentaram, posteriormente, o discurso da historiadora, falando da “decomposição do Ocidente”, do “triste fado lusitano”, “da reinvenção de Portugal na Europa”, e do “desastre da aventura portuguesa”, aquém e além-mar. O pessimismo de Antero de Quental, Oliveira Martins e Eça ainda está bem vivo na “choldra ignóbil”. A direita “tuiteira” também deu os seus contributos com o libertário Mário Amorim Lopes (o novo vulto do liberalismo no burgo portuense), o divertido António Nogueira Leite, e o franco-atirador da direita online, Rui Paiva. Nuno Palma, professor da Universidade de Manchester, com o seu olhar analítico pseudo-britânico, lembrou-nos que o Estado Novo não foi assim tão mau, e que a narrativa historicista da esquerda é o grande anátema da pátria lusa.

A somar, temos um Paulo Portas didático, sério, fleumático e paternalista – um homem a par “do presente” e do “futuro” – talvez “o homem novo” que a direita precisa para o século XXI; um Rui Rio a dizer que o PSD não é de direita, mas sim de centro: o que deve ter causado urticária em alguns correligionários “da verdadeira direita”; um André Ventura a jogar o playbook de Donald Trump à portuguesa, numa vitimização suplicante e pseudo-messiânica, aludindo à “venezuelização de Portugal”, à “união das direitas” e à máxima “a direita não é a direita, sem a verdadeira direita” (direita, leia-se, claro está, ele). Segundo o mesmo, só o Chega combate eficazmente as hostes vermelhas, pelo que o PSD jamais poderá governar sem o seu novo amigo histérico, petulante e corajoso – em suma, um “não me podem evitar”; Por fim, na plateia, estava a figura sebástica que irá salvar a pobre República peninsular: o doutor Pedro Passos Coelho, que aguarda, pacientemente, pelos vazios de poder. Neste quadro, podemos concluir que Costa dorme bem.

Texto de Miguel Brandão