Há uma clara ignorância generalizada sobre o conflito israelo-palestiniano, protagonizada especialmente por aqueles que veem esquerda e direita em tudo, e que por aqueles que têm uma perspetiva maniqueísta da história. Esta região do planeta, devido ao seu extraordinário lastro histórico, não tem uma solução aparente. Em primeiro lugar, contrariando a crença popular, o conflito israelo-palestiniano não é milenar: é um conflito com pelo menos 104 anos. Tão pouco é somente um conflito religioso: é um conflito sobre a posse da terra – a posse da Palestina e dos lugares sagrados às religiões abraâmicas. No século XIX, a Palestina era administrada pelo Império Otomano e as comunidades islâmicas, cristãs, drusas e judaicas viviam em paz e harmonia. De acordo com os registos otomanos, em 1878, 87% da população da Palestina era islâmica, 10% cristã e 3% judaica. Em Jerusalém, a população estava equitativamente distribuída e todas as festividades e rituais religiosos eram comumente respeitados. O árabe era a língua quotidiana para todas as minorias religiosas, havendo ao mesmo tempo um interessante intercâmbio social e cultural entre os palestinianos. Como é que passados 200 anos estamos perante um conflito insolucionável entre estas comunidades étnico-religiosas em toda esta região?

Em boa verdade, tudo começa com uma dupla mentira apregoada pelos britânicos, durante a Primeira Guerra Mundial: os anglo-saxónicos, através da Declaração de Balfour em 1917, prometeram um quinhão de terra aos judeus na Palestina; e dois anos antes prometeram ao líder árabe Sharif Hussein um estado pan-arabista, caso unissem esforços com Londres na luta contra os otomanos. Após derrocada do Império Otomano, os ingleses não cumpririam nada do que tinham prometido: ao invés disso, simplesmente dividiram o Médio-Oriente com os franceses através do tratado Sykes-Picot. A Palestina, o Iraque e a Jordânia seriam protetorados britânicos e o Líbano e a Síria estariam sob administração francesa até praticamente ao final da Segunda Guerra Mundial. Estas divisões foram executadas literalmente a régua e esquadro, desrespeitando-se as demais minorias étnicas e religiosas, obliterando-se ao mesmo tempo a milenar cultura nomadista e caravaneira destes povos com a imposição de novas fronteiras. À semelhança do que observamos na Índia, no Paquistão, no Bangladesh, na Irlanda e no Chipre, os britânicos deixam sempre problemas complexíssimos por resolver.

A colonização britânica da Palestina criou novos problemas. Os britânicos criaram instituições diferentes para cada grupo étnico-religioso, fazendo com que estas comunidades deixassem de cooperar socialmente, impondo novas tensões intergrupais: como sempre, os ingleses dividiram para reinar. Ao mesmo tempo, o aumento da imigração judaica para a Palestina (30% da população da Palestina em 1938) criou ainda mais tensões entre as comunidades locais: com a anuência dos ingleses, os judeus adquiririam várias terras compradas a proprietários absentistas e despejaram milhares de agricultores palestinianos que viviam nestas terras há gerações. Toda esta situação aguçou as ambições nacionalistas palestinianas, e nos anos 30 observaram-se várias revoltas de caráter nacionalista contra o imperialismo britânico. Com a ajuda de milícias judaicas, os britânicos também conseguiram aniquilar as demais revoltas dos nacionalistas palestinianos, aumentando paulatinamente a animosidade entre estes dois grupos étnico-religiosos. Após a Segunda Guerra Mundial, os britânicos entregaram o problema às Nações Unidas e em 1947 o território é dividido entre duas nações, numa área geográfica heteróclita: o estado de Israel e o Estado da Palestina. Vieram naturalmente as guerras, sendo a guerra israelo-árabe de 1948 e a guerra dos seis dias de 1967 as mais sangrentas: os israelitas venceram e o mundo árabe reconheceu finalmente o estado de Israel. Porém, os palestinianos nunca se deram por vencidos até aos dias de hoje. Em maio deste ano os rockets israelo-palestinianos iluminaram os céus da Terra Santa, comprovando mais uma vez que jamais haverá paz no Levante.

O conflito israelo-palestiniano é talvez perene. O sistema de dois estados parece não resultar e tão pouco o sistema unitário oferece uma alternativa viável. As narrativas contemporâneas, polarizadas e permeáveis aos juízos menos rigorosos, ignoram a raiz do problema: o imperialismo europeu, que criou e alimentou várias ficções nacionalistas, ora por conveniência, ora por pressão, ora por desleixo, ora por ignorância. O imperialismo britânico, assim como muitos outros imperialismos europeus, um pouco por todo o mundo, dividiram inúmeras comunidades e lançaram as sementes para o caos e ódio eternos. É bom lembrar que antes da interferência europeia, estes povos viveram outrora em paz neste canto do mundo. A Europa ceifou a vida de milhões de judeus e atribui-lhes um estado, que jamais lhes trará a paz eterna, para assepsiar o seu passado negro. Os palestinianos foram expulsos do seu território e vivem acantonados em lugares absolutamente distópicos. Concludentemente, a Europa criou um problema onde ambos têm razão. A história demonstrar-nos-á quem levará a sua “razão” mais longe.

Texto de Miguel Brandão