Num momento em que Arouca está novamente na moda, com a inauguração da ponte suspensa 516, quero aqui proclamar a defesa do trilho. Nas funções sindicais e políticas, regionais e nacionais, que exerço não passa um dia sem que alguém me pergunte – então e a ponte suspensa? Tornou-se um clássico, substituindo um outro, o dos Passadiços do Paiva, a busca urbana (e suburbana) do paraíso perdido, a mítica “Arouca dos campos e montes”.

Apesar de não ser a minha praia – a ponte suspensa e o passadiço – não pretendo aqui colocar em oposição o trilho ao passadiço, um turismo de nicho a um turismo massificado e menos ainda negar a importância económica para o concelho dos equipamentos existentes, mais ainda neste tempo de salutar alívio do martírio económico dos confinamentos. Quero, mais que tudo, sublinhar as potencialidades de um esquecido lado B, para o qual Arouca tem condições únicas. Em boa verdade, importa dizer, o território concelhio é tão vasto que podem cá conviver, o “parque de exposições da ponte suspensa e do passadiço” com o lado B, o trilho.

Apesar de reconhecer que a Freita e o Montemuro são diferentes, em escala e altimetria, da cordilheira cantábrica, dos Pirenéus ou dos Alpes, continuo a achar que um olhar atento ao que por lá se faz, poderia permitir uma abordagem diferente da que tem sido feita, designadamente na possibilidade de criação de uma rota integrada de trilhos (percursos pedestres) com uma rede de abrigos de montanha que permitisse, um circuito inter-concelhio da Freita e do Montemuro.

Era necessário o aplainamento do relevo a toneladas de madeira, no percurso pedonal que está a ser construído ao longo do Arda, da Vila a Rossas? Não, não era. Está muito bem o percurso, pode ser uma forma de, finalmente, tratar da limpeza daquele curso de água, apesar dos Passadiços do Paiva não terem permitido a melhoria da qualidade da água do rio nem o ordenamento do infindável eucaliptal das encostas envolventes.

Numa aldeia minhota que me diz muito, conheço um trilho de metro e meio de largo, talhado à mão, o Eco Circuito da Corga da Padela, cerca de 4 quilómetros, por entre árvores e calhaus, proibido a motos e bicicletas, falho em passadiços de madeira. Trata-se de um projecto financiado pelo Fundo Ambiental, inclui 22 hectares de limpeza de matos, 8 hectares de arborização de carvalho e 2 de medronheiro, com placas de identificação da flora ribeirinha, leito e margem da ribeira limpos. Uma intervenção integrada de ordenamento da floresta, com uma componente pedagógica, garantindo uma atividade física com algum significado, graças ao aos quase trezentos metros de desnível ascendente (e descendente).

Um trilho é mais barato, de manutenção mais fácil, menos invasivo. É mais acidentado, tem maior grau de dificuldade, é menos dado a excursões. Mas não é só para atletas. Nos trilhos dos Picos da Europa, dos Pirenéus ou no Tour du Mont Blanc a fauna que os percorre não é só “corpinhos Danone”, é gente de todas as idades, tamanhos e perímetros. Afinal, tudo mais não é que uma questão de hábitos. E os hábitos, tal como os gostos, educam-se.

Texto de Francisco Gonçalves