Antes de mais, quero, desde já, deixar claro que não vou escrever sobre Sócrates! Há imensos especialistas e juristas que investigaram e teceram considerações sobre este fenómeno sem que tivesse havido conclusões práticas nestes longos 7 anos, pelo que, como entenderão, não desejo engrossar este exército que, desculpem-me a expressão, é como o Covid-19, tão invisível como prejudicial à saúde pública da democracia portuguesa…

Mas não, reitero que não vou escrever sobre Sócrates… Felizmente não sou amiga dele, não tenho os cofres recheados que o possam valer para suprir necessidades básicas, não tenho interesse no ramo imobiliário, não tenho pretensões políticas e prefiro os originais às fotocópias. Quanto a malas também não me poderia manifestar, porque só as uso para transportar roupa e calçado e não tenho por hábito ir de férias com 10000 euros em notas, o que seria de todo impossível, porque o cartão de crédito não tem esse plafond… Também nunca fui a Paris e optei pelo ensino superior nacional…

Como veem, não me posso pronunciar sobre ele, o que até seria ridículo da minha parte, dado que não teria capacidades cognitivas para abarcar a criatividade de Sócrates nem o seu círculo de amigos e de familiares.

Ao contrário de mim, que não tenho a ousadia de comentar este caso excessivamente mediatizado, há jornalistas que parecem não ter mais nada que fazer senão desenterrar provas e factos que não podem ser provados! Parece-me uma perda de tempo o que se está a passar… Será que os jornalistas e os advogados e os juízes já perguntaram a Sócrates se ele é culpado? Para mim basta-me a palavra de Sócrates porque, como sabemos, os políticos dizem sempre a verdade e colocam acima dos interesses pessoais o interesse público – e isso é válido para os políticos de todas as cores partidárias!

Também não posso falar de Sócrates e da acusação de corrupção porque Portugal não tem corrupção, caso contrário os corruptos e os corruptores estariam presos… Haver corrupção e esta não ser punida seria impensável num sistema jurídico tão perfeito como o nosso!

De qualquer modo, não faria sentido gastar as poucas linhas que tenho para este artigo de opinião para aquilo que considero um delírio…

Como não poderia falar de Sócrates, ainda que o desejasse, vou dar a conhecer um livro intitulado “Arte de Furtar” editado em 1991 pela Imprensa Nacional Casa da Moeda, com introdução de Roger Bismut, escrito pelo padre jesuíta Manuel da Costa em 1652, e que procura definir uma moral e uma conduta ideal por parte de quem governa, opondo a casuística ao rigor, defendendo por vezes uma certa permissividade baseada em questões da pragmática, o que fez com que este livro fosse considerado lascivo. Esta obra, contudo, deve ser entendida como uma sátira, inserida no contexto peninsular, numa altura em que Portugal havia perdido a independência para Espanha e estava sob o jugo do governo e das “unhas” espanholas. O autor escreve este livro como uma espécie de panfleto contra o roubo espanhol. A crítica contemporânea insere esta obra no género da novelística pícara, em que as personagens são exemplos de anti-herói.

Isto porque não poderia escrever sobre Sócrates, apesar de poder ser facilmente confundido com um anti-herói, parecer uma personagem de ficção e o processo judicial da Operação Marquês parecer uma novela, capaz de substituir na atualidade a “Arte de Furtar”. Mas sobre isso e sobre a lei do enriquecimento ilícito também não saberia como opinar…

Texto de Margarida Rocha