No dia 21 de fevereiro de 2005, o senhor engenheiro, após a conquista da primeira e única maioria absoluta do partido socialista, declarou o seguinte: “esta foi uma grande vitória do PS, mas é sobretudo uma grande vitória dos portugueses que afirmaram, nas urnas, a vontade de terem um novo projeto para Portugal! Por isso, quero pedir-vos a todos o vosso empenhamento numa governação que sirva, todos, todos, os portugueses!”. Um discurso premonitório, de facto. Era a derrota do breve e errático consulado santanista e a esquerda moderada sentia-se esperançada com esta vitória eleitoral. O primeiro mandato foi bom, dizem. O sonho de um Portugal tecnológico, verde, progressista e modernizado ganhava forma com o governo do senhor engenheiro. Porém, passados 16 anos, percebemos que tudo não passou de um elã ingénuo e cheio de contradições. Mas não, não vou falar do senhor engenheiro. Vou sim, falar do partido do senhor engenheiro.

Hodiernamente, o partido que fabricou o senhor engenheiro controla quase tudo neste país. O nepotismo, as redes clientelares, as teias de influência, as ligações familiares e a promiscuidade entre a política e os negócios parecem não ter desaparecido no partido de Mário Soares. Metamorfoseando, talvez o PS contemporâneo se assemelhe a um polvo. Os polvos utilizam os seus tentáculos para se moverem, apresarem as suas vítimas e para se defenderem dos seus predadores. Os polvos também mudam de cor, tanto para caçarem as suas presas como para se evadirem das demais ameaças. Em suma, podemos encontrar bastantes similitudes entre este molúsculo cefalópode e o establishment socialista.

Em primeiro lugar, o PS é um partido absolutamente tentacular: conta com os seus pardais nos mass media; enredou e partidarizou a função pública; correlaciona-se estrategicamente com a sociedade civil; tem figuras de grande relevo nos escritórios de advogados lisbonenses e nos quadros administrativos do PSI 20; detém um poder autárquico incontestável; elegeu, de um modo arbitrário, os seus correligionários para o Banco de Portugal, para o Tribunal de Contas, para a Procuradoria Europeia da Justiça e para o Ministério Público; em suma, o PS cooptou por completo a vida nacional nos últimos 20 anos. Ao mesmo tempo, os socialistas mudam de cor quando necessário à semelhança dos polvos. O PS é uma amálgama ideológica kafkiana, que congrega socialistas democráticos, centristas, sociais-democratas, keynesianos, dissidentes da extrema-esquerda e prosélitos da Terceira Via. Porém, dizer que o PS é um partido de esquerda é no mínimo desafiante. Basta lembrar que Diogo Freitas do Amaral foi ministro do primeiro governo do senhor engenheiro, e que a políticas económicas de Guterres ou António Costa em nada se inspiram nos modelos socioeconómicos da cartilha marxista ou social-democrata clássica. Em boa verdade o PS já foi tudo e o seu contrário. Vejamos: o PS consegue pugnar contra o neoliberalismo de Passos, como aprovar vários orçamentos austeritários com a complacência do BE, registando concomitantemente o menor investimento público de sempre; propaga o keynesianismo, mas cria a moldura fiscal mais agressiva da democracia portuguesa. Sintetizando, o PS muda de cor sempre que lhe seja conveniente, formulando narrativas que baralham o imaginário do eleitor comum. Talvez o seu segredo seja convencer a massa centrista que de o seu partido é virtualmente esquerda.

Por muito que nos custe admitir, o senhor engenheiro é um produto do PS – um partido tentacular que nos últimos anos foi sistematicamente complacente com o lado mais obscuro da vida política nacional. A operacionalidade do senhor engenheiro fez-nos perceber, mais do que nunca, que os partidos são na verdade uma plataforma de ascensão social. São os partidos como o PS que produzem e produzirão figuras camilianas e queirosianas como o senhor engenheiro, que rumam ao topo do escol social sem qualquer tipo de escrúpulos. Um PS tentacular, sem contrapeso político, é um sério perigo para a democracia nacional. Eu próprio já perdi a esperança no lado mais nobre da política. Imagino os nossos políticos a fazer os seus contactos-chave em opíparas almoçaradas nos restaurantes mais exuberantesdas principais avenidas da capital portuguesa; a dizerem “porreiro, pá” enquanto comem um carpaccio de polvo e bebem um bom vinho alentejano; e a disputarem a liquidação da conta com os seus sorrisos dissimulados e subservientes. Até pode ser um exercício demasiado imaginativo, mas é o quadro que me pintam.

Texto de Miguel Brandão