Este mês de abril, carregado de maior simbolismo para as culturas de tradição cristã, com a festa da plenitude da liberdade e do amor, a Páscoa, fica machado, também, por um acontecimento que enodoará a história da liberdade de Portugal, a operação Marquês. Uma publicação chamou-me a atenção: “a cobra só morde o descalço.”

O “descalço” simboliza um povo que se arrasta infindavelmente por uma longa história de pobreza que teima em não terminar e que apenas se escandaliza com os futebóis, notícias “telenovelescas”, esmiúça escândalos de vazias e fúteis celebridades rascas de reality shows. Um povo cúmplice do seu próprio destino. Um povo que se verga passivamente perante a corrupção e vai continuando a consenti-la.

Questiono-me o que leva gente que se propôs servir o seu povo e a sua pátria, ter estas atitudes que destroem sonhos e escravizam gerações. Como é que conseguem deitarem-se tranquilos, aparecerem nas televisões com caras “lavadas” como nada se acontecesse. E o povo deixa. O povo parece que também não sente na cara vergonha e revolta. Não sente que se deve indignar perante uma lei que tudo permite a alguns, os “calçados”, aqueles que se acham importantes. O povo segue cobardemente. Eu sinto vergonha!

Foi anunciado a prescrição de crimes. Quando isto acontece não significa que deixou de o ser por esse facto, nem que o criminoso passou a ser inocente. Prescreveu, não se sabe bem porquê, mas, provavelmente, por motivos ou circunstâncias que o tornaram incapaz de o julgar em tempo estimado útil.

Enquanto povo, deveria fazer-nos refletir profundamente. Muito, mesmo. Os tempos atuais apelam-nos claramente para uma nova reflexão sobre o sentido de educar. Este desafio assenta na resposta à seguinte pergunta: como pode a tarefa educativa fazer frutificar as competências humanas e espirituais? A educação é a formação do homem todo, com as suas faculdades e capacidades, para que ele possa tornar-se verdadeiro homem. Esta visão do homem assenta no conceito de interioridade, permitindo-lhe percorrer um caminho que o conduza a um fim último dignificante.

O homem é um ser inacabado. Faz-se permanentemente. Pode escolher sujeitar-se ao natural, que se caracteriza pela passividade, pelo egoísmo e que se rege pelo prazer dos sentidos, ou optar, pelo contrário, pela liberdade. Ora, é na liberdade que se realiza a grande aventura da existência do ser humano, porque só ela dá a possibilidade do desenvolvimento da pessoa.

A interioridade humana é o lugar onde se ouve a voz da consciência e é o lugar das decisões pessoais. É o ponto essencial na tomada das decisões. É aqui o núcleo da origem da vida pessoal. É onde ela nasce. Quando eu vivo nesta interioridade, a vida, enquanto ação e decisão, atinge o seu grau mais elevado. Compreende agora a origem dos corruptos e dos desonestos?

É este passo que temos que dar enquanto Povo. Se não houver coragem para fazer esse caminho, continuaremos “descalços” até ao precipício.

Texto de Carlos Matos