Hoje, na habitual caminhada domingueira, assolou-me um conjunto de memórias que partilho com os leitores e que para os “mais” velhos, ou os da minha geração, com certeza conseguem rapidamente assimilar e cuja plasticidade cerebral jamais esquecerá.

Fiz um percurso pelos arredores da minha aldeia, onde a subtileza da natureza os sons e tons deixam a mente e a alma em sobressalto e o coração angustiado.

Passaram-se 3 décadas com o tempo a voar, o ciclo repete-se todos os anos a natureza e o tempo primaveril em particular traz-nos memórias e trepidantes momentos.

Nessa altura seriamos, por estas aldeias talvez uns 30/40, uns mais miúdos outros mais graúdos, que nestes dias e em especial aos domingos, aldeia acima, aldeia abaixo, brincadeiras na calçada, caminhadas em grupo com programas sem destino, onde os “aboilos” humanos, eram ouvidos pelos montes, ribeiros e, ao entardecer, na chegada às aldeias; eram tempos de convívio e em grupo que agora apenas se conseguem vislumbrar no património imagético de alguns que guardaram fotografias desses tempos passados.

Hoje foi possível de forma notória e com alguma nostalgia recordar esses tempos e esses miúdos que paulatinamente foram abandonando as suas aldeias, procurando e fazendo vida noutras paragens. Desses grupos e pelas “aldeias da travessa” restam dois resilientes (eu e o meu irmão). Naturalmente que seria utópico pensar que todos poderiam ficar por cá, mas de uma coisa estou plenamente convicto, nem tudo foi feito para que isso tivesse acontecido. Aliás a indiferença, o modelo governativo e de desenvolvimento, o centralismo foram alguns dos principais factores que fizeram com que o abandono e a desertificação, mais ou menos rápido levassem a que os mais jovens e consequentemente os mais idosos, quer pelo processo natural da morte, quer pela busca de segurança e necessidades básicas, levassem a que os mesmos acompanhassem os filhos ou fossem para lares ou outros espaços colectivos.

Posso estar enganado, mas se os laços de gerações e as memórias dos mais velhos não forem passadas e assimiladas, nenhuma ou pouca esperança podemos ter no futuro destas aldeias e destes caminhos calcorreados e que ainda se podem vislumbrar nas pedras de algumas calçadas que ligam tempos e gerações.

De pouco ou nada vale dizer que a floresta e os campos estão abandonados e que é preciso pensar no desenvolvimento do interior porque o litoral está sobrelotado e o país inclinado.

Texto de Vítor Carvalho